37º 01’ N/ 11º 29’ E A DRAMÁTICA VIAGEM DO LUGRE “ANA PRIMEIRO”

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A campanha de pesca ao bacalhau do lugre “Maria Carlota” em 1945 estava terminada. Do seu porão cheio de bacalhau salgado foram descarregados cerca de três mil e setecentos quintais do precioso fiel amigo, um pouco acima da sua capacidade. Era um lugre de 36, 60 metros de comprimento e de três mastros, envergando velas latinas triangulares e retangulares.

O bacalhau secava agora sobre um sistema de estacas e arames em paralelo no ambiente seco e fresco da seca situada na margem sul do rio Lima, em Darque.

O oficial náutico deste navio nesta campanha – o caminhense Damião de Matos – regressava ao seu saudoso lar e depois de abraçar a sua Maria, como dizia sempre que se referia à sua esposa nas suas notas de alto-mar, e dos seus sete filhos, gozava agora as delícias bem merecidas do doce lar. E, tantas foram as vezes, que a sua família tinha passado pelos seus sonhos e preocupações, pela saudade e pelo olhar sobre aquele oceano inquieto num horizonte circular sem mais que uma imensa massa líquida de solidão e isolamento!…

Enquanto os dias poéticos do outono se sucediam com as árvores a despirem-se das folhas que caiam ao chão já amarelecidas e estaladiças que o vento fresco sacudia e a luz cromática do poente despertava a nostalgia das viagens além, outro lugre bacalhoeiro depois de ter regressado ao seu porto de armamento na Figueira da Foz rumava a Viana do Castelo para fazer uma reparação das suas estruturas ressentidas das violentas pancadas das implacáveis ondas do Noroeste: era o lugre “ Ana Primeiro” ex-Érika, construído na Suécia e adquirido pelo armador figueirense João José Figueiredo Costa.

Durante esta permanência do lugre “Ana Primeiro” em Viana do Castelo, o armador conseguiu um carregamento de toros de madeira destinado ao porto tunisino de Sfax, a sul de Tunes.

E o nosso oficial Damião de Matos foi contratado para fazer parte da tripulação como Imediato, a segunda figura de comando do navio capitaneado por João Costa, o jovem rebelde que não queria estudar e após experimentar a humilhante condição de moço de convés do lugre “João José II” comandado por outro caminhense – o capitão José de Matos – e tratado como se não fosse filho do armador, seu pai, que assim o castigou, viria a tornar-se mais tarde um brilhante e admirado oficial. 

Assim, ainda regressado há cerca de mês e meio de seis meses de ausência durante a campanha de pesca ao bacalhau desse ano de 1945, Damião de Matos voltou de novo ao mar, desta vez para uma viagem de comércio à Tunísia.

O lugre com motor auxiliar Skandia, potência 130 HP “Ana Primeiro”, com um velame envergado nas caranguejas e retrancas de três mastros( traquete, grande e mezena) mais a vergôntea que saia da proa, o pau da bujarrona, onde sobressaiam três graciosas velas latinas triangulares aumentando a superfície vélica do navio, deixou o porto de Viana do Castelo ao entardecer de um dia de Novembro de 1945 com destino a Sfax, na Tunísia.

O “Ana Primeiro” – o nosso “Aninhas” como carinhosamente o Imediato Damião de Matos lhe chamava –  já lhe era familiar por ter feito nele outras viagens á pesca do bacalhau.  

Homem trabalhador e oficial experimentado na dureza dos mares agitados do Atlântico noroeste e nas geladas águas da Gronelândia em pequenos lugres, por vezes sorria de si mesmo, dos seus pensamentos obscuros sobre uma viagem de transporte de madeira aparentemente fácil através do mar Mediterrâneo menos hostil ao que estava habituado. Assim se desembaraçava dos seus maus pressentimentos, daquela espécie de premonição que passava pelo seu inconsciente naqueles dias desde que se despediu dos seus para tão breve e simples viagem, fazendo até por ignorar que no mar tudo é difícil e tudo pode acontecer. 

A viagem decorria normalmente sem nada de relevante a registar, o navio navegava em condições climatéricas favoráveis. Porém, algumas horas após terem passado em frente a Tunes, o Imediato morre subitamente. Assim, sem qualquer sinal aparente, surpreendentemente! A tripulação sofreu um duro choque. A tentativa de alcançar Tunes para o sepultarem dignamente em terra tornou-se impossível devido aos ventos e às correntes contrárias. Nessa adversa circunstância, o corpo do malogrado Imediato foi depositado sobre umas tábuas nas quais o amarraram junto com umas peças de ferro. Depois, o capitão mandou comparecer toda a tripulação para encomendar a sua alma a Deus e o corpo estava preparado para ser lançado ao mar após as solenes palavras:

– “Entregamos ao Todo-Poderoso a alma do nosso companheiro Damião de Matos!”– pronunciou o capitão.

Este, com efeito, dirigiu a prece em nome de todos, o esquife rudimentar improvisado estava um terço fora da borda e dois terços dentro com a cabeceira poisada no convés enquanto o navio à deriva naquele momento baloiçava. Bastava empurrar o corpo para ser lançado ao mar. Mas ninguém queria ser o executante deste ato tão doloroso e lúgubre, embora necessário. Todavia, depois deste momento de hesitação e de sentimento, venceu a razão e o corpo foi lançado às profundezas mediterrânicas com o pranto nos olhos e na expressão dolorosa de todos os tripulantes.

Ouçamos o testemunho pungente de um membro da tripulação, para compreendermos melhor a consternação daqueles homens e a sua admiração por Damião de Matos no qual viam um dos raros exemplos de humanidade na dureza da vida a bordo daqueles navios naquele tempo e, sobretudo, na pesca do bacalhau de onde ele vinha:

“Este acontecimento foi para todos nós uma situação difícil, tanto mais que o Imediato era uma jóia de homem! (…) Tentei não assistir ao seu lançamento ao mar, mas o capitão, quis e com todo o direito, que toda a tripulação estivesse presente ao ato, para se prestar a nossa última homenagem ao nosso companheiro. Para mim, foi a passagem mais dramática que vivi durante a minha vida do mar …”(Manuel Luís Pata, 2º motorista )

É mesmo assim. Este sentimento de perda no mar de um amigo e admirado oficial, marca e nunca mais se esquece. Passado um dia o “Ana Primeiro” atracava ao cais de Sfax e procedia à descarga da madeira. Depois passou ao cais do minério para o carregamento de retorno: fosfato, com destino a Setúbal. Com o intento de um carregamento mais lucrativo, carregaram o navio em excesso e isto iria ter consequências devido ao baixo poder de flutuação do pequeno lugre- motor conjugado com a natureza da carga.

O “Ana Primeiro” deixou o porto de Sfax e iniciou a viagem de regresso. Porém, logo após umas horas carregou mau tempo. As rajadas de vento começaram a fustigar o navio e o mar ficou alterado. As velas não resistiam à fúria do vento e rasgavam-se. O navio não podia manter a “capa”, o pequeno motor auxiliar não tinha força suficiente para a manter e as velas eram imprescindíveis. Para complicar mais a situação o navio não tinha o porão preparado para receber aquele tipo de carga, tendo-se o fosfato infiltrado nas cavernas e casa das máquinas. Em consequência a bomba elétrica ficou com o chupador encravado e não ferrava, a bomba mecânica ficou danificada pelo fosfato e também as duas bombas manuais do convés tinham os tubos de aspiração obstruídos e impossibilitados de poder esgotar a água que entrava. 

Depois de muitos esforços conseguiram ferrar uma das bombas e escoar a água. Quando o tempo amainou um pouco, mas com muitas dificuldades, conseguiram arribar ao porto de Tunes e reparar alguns estragos nas velas e nas bombas. Três dias depois o “Ana Primeiro” deixou o porto de Tunes e tomou de novo o rumo de regresso. Mas passados cerca de dois dias ventos e correntes contrárias dificultavam a marcha obrigando o navio a bordejar entre a costa de Espanha e Marrocos no mar de Alborão. Só restavam 50 litros de gasóleo no tanque de serviço para poderem pôr a máquina a funcionar em caso de emergência e poder dar a volta ao navio. Então foi preciso misturar petróleo da iluminação, óleo queimado de lubrificação e mais um pouco de óleo novo, e prepararam-se os injetores para receber essa mistura. Atingida a temperatura desejada da máquina, começaram a bombear lentamente a mistura para o tanque de serviço e, embora a mistura fosse espessa e tivesse dificuldade em entrar nas bombas de injeção, com saber e paciência, os motoristas conseguiram manter a máquina a trabalhar. Os alimentos em parte já tinham acabado e agora resumiam-se a umas sardinhas salgadas que tinham levado e dois golfinhos que tinham apanhado. 

Ao fim de catorze horas alcançaram o porto de Gibraltar, onde meteram alimentos e gasóleo e seguiram para Setúbal onde chegaram passados dois dias de viagem. Quando chegaram, alguns homens pediram o desembarque do navio entre eles dois marinheiros e os dois motoristas, que não se entendiam desde o início da viagem. Outros também se despediram devido à amarga experiência.

Damião de Matos, pelo seu caráter bom e generoso aliado à grande coragem e determinação que lhe era peculiar, mas também por ser um experimentado náutico, qualidades amplamente demonstradas em outras viagens do seu intenso e interrompido percurso de marinheiro não pode ser esquecido pelos caminhenses que dele se devem orgulhar. 

O seu corpo repousa no fundo do Mediterrâneo, parece que, como presságio do que viria a passar-se naquele mar estes últimos anos com tantos mortos na tentativa de chegar à Europa. Muitos, com certeza, lhe fazem companhia em 37º 01’ N e 11º 29’ E, ao largo da Tunísia. 

O “Ana Primeiro”, o seu “Aninhas”, viria a afundar por incêndio cinco anos depois, em Agosto de 1950 nas Virgen Rocks –  Grande Banco da Terra Nova.