A maravilhosa romaria de S. João d’Arga vista pelo padre Coutinho, antigo pároco serrano

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Estou com o Padre Paulo Emanuel, meu colega, nas causas pelas quais luta e a Romaria de S. João de Arga precisa de passar à número um.

Conheço Romarias em Portugal e na Galiza que chegue para fazer esta afirmação. Estive nesta romaria desde o dia 28 pela manhã até ao dia 29 às 14.00h sem encostar a cabeça para descansar.

Fui para a Serra d’Arga em 1972. Aí por 1955 a Casa Ponte de Viana pela primeira vez levara música gravada para lá. Nos intervalos de calmaria havia sempre música gravada transmitida por alto-falantes. De um lado da Capela até à meia noite havia cantares ao desafios, concertinas e castanholas que os galegos traziam, enquanto do outro lado duas bandas de música disputavam o maior número de palmas com tanta gente apenhada sobre os coretos descobertos. 

Depois da meia noite, ficava uma banda e a outra ia embora. Até ao nascer do sol, em toda a volta da capela, grupos e grupos a puxar pelas goelas a ver quem cantava mais e melhor, dando aos foles das concertinas e  com as mãos outros a dar força às castanholas. 

Procuram cada um quando queria ou sentia fome comer cabrito, molhar as goelas com aguardente com mel, um café de saco, uma ginja ou um mata-bicho e volta para a alegria.

Era uma alegria sã, livre, serena, cheia de paz e os devotos lá deitavam a esmolinha ao S. João e, “não vá o Diabo tecê-las” davam também ao São Miguel, conhecida por imagem do Diabo. Um dia perguntei a uma senhora que imagem era aquela e ela respondeu que era a do Diabo. Então retorqui, então a senhora dá uma esmola ao Diabo? Ela respondeu: Ó meu senhor “nem de mal com Deus, nem de mal com o Diabo”. Foi um caso. Hoje já todos saberão que é a imagem de S. Miguel pisando Lúcifer e darão para que tenham boa sorte nas colheitas, como aliás se aproximava a celebração litúrgica de S. Miguel. 

Esta era e foi, por aquilo que conheço a romaria mais genuína de Portugal e a mais antiga do país. Pois já antes, gente do Neiva à Galiza iam lá em cumprimento pagão do rito da iniciação, cristianizado cerca do século VII, quando os Monges fundaram aí um cenóbio. 

A lenda diz que S. João Baptista apareceu lá numa enseada juntinha ao Ribeiro de S. João, onde as telhas eram deixadas no tempo dos nossos avoengos. Levaram-me lá um velhinho dos muitos que me falavam disso.

Era a romaria da Montanha santa assim se ouvia chamar aos da esquerda do rio Lima e tinha-se de atravessar 7 serras para lá chegar. 

Muitos que iam daqui ao chegar à Chão do Guindeiro ao ver o telhado da capela prometiam chegar lá de joelhos e era aí nesse sítio onde se joelhava e de pedra em pedra lá se iam arrastando até chegar lá e dar três voltas à capela e rezar ao santo.

Na década de 60 a Casa João Ponte pilo filo de João Ponte, ainda hoje vivo e chamado também João levou o primeiro gerador para lá, para iluminar o adro e o caminho na direcção do tanque da água vinda da abobadada Fonte dos Frades. Hoje já tem iluminação da EDP muito mais eficaz e mais abrangente.

Segundo me dizem, pois por motivos de saúde já lá não vou há mais de 20 anos, continua a ser uma romaria genuína, cheia de liberdade, paz, oração, reconciliação e a alegria como sempre é contagiante. Ninguém fica indiferente e lá se alguém lá chega depressivo, de lá regressa aliviado. Um bom remédio para depressões: deixar contagiar-se pelo ambiente, tudo esquece e lá ficam todos os males de que S. João é defensor!

Esta romaria, que chegou à final do concurso da RTP deveria ficar em primeiro lugar entre as 7 Maravilhas da Cultura Popular no próximo dia 5 de setembro. 

Esteja atento e vote ligando para o 760 207 761.

Padre Artur Coutinho, antigo Pároco da Serra d’Arga