“Ainda que algum dos mortos ressuscite“ ( cf. Lc 16, 31 )

REFLEXÃO EM TEMPO DE PÁSCOA
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“ Jesus ressuscitou, somos testemunhas  disso”.

O grito Pascal acaba com a ideia de que a morte de Jesus de Nazaré não foi o fim trágico de um nobre coração, mas o ponto de viragem da história humana e o divino segredo do seu destino. Com este grito abre-se a esperança de que a morte não é a última palavra sobre o destino do homem e a vida ganha agora um sentido. A vida é mais forte do que a morte. Vale a pena esta experiência de viver.

As testemunhas da ressurreição de Jesus experimentaram e afirmaram que, contra toda a expectativa o impossível aconteceu de fato:  o Crucificado está vivo e Deus  fez dele Senhor e Cristo. Ressuscitou! Este grito da manhã de Páscoa, torna-se assim, o fundamento e o ponto de partida da fé cristã.

A afirmação das testemunhas da ressurreição de Jesus surpreende porque não segue objetivamente as leis da nossa história que termina na morte. Contrariamente, Jesus, que estava morto, está agora vivo e neste acontecimento Deus manifesta a sua aprovação do que foi a vida de Jesus, homem livre crucificado por causa da sua história. Quer dizer que, com a ressurreição, Deus confirmou de modo solene tudo quanto Jesus disse e realizou durante o seu ministério na terra, o seu combate pela justiça e o direito, ou seja, pela verdade. Rebentar as cadeias da injustiça, mandar embora livres os oprimidos, quebrar todos os jugos, repartir o pão com os esfomeados, dar abrigo na própria casa àqueles que a não têm, enfim, amar de forma incondicional. Foi morto por isso. Não foi  Deus que o castigou em nosso lugar, mas foi a mão dos homens que o castigou à morte “ e morte de cruz”. Foram os homens que castigaram o Justo inocente. Nenhum dos protagonistas  da sua condenação  – Judas, Pilatos, Herodes, Anás, Caifás – eram figurantes de uma peça previamente escrita por Deus. A morte de Jesus é a consequência do combate histórico que travou. E dizer que Jesus morreu assassinado pelos homens, quer dizer que morreu por causa deles, dos seus pecados contra todos os justos  que ao longo da história  tentam transformar radicalmente as relações entre os homens em ordem à fraternidade universal. Como não o haviam de fazer a Quem trouxe uma revolução de fogo, de transformação dos corações? “ Vim trazer o fogo sobre a terra”, tinha dito Jesus de Nazaré.

Para compreender o grito pascal com que iniciamos  este texto, é preciso distinguir o que tinha de estranho para os judeus  e o que tem de espantoso e duvidoso para nós ocidentais a ressurreição de Jesus.

Para os judeus o que tinha de estranho era o fato de se tratar da ressurreição de um indivíduo isoladamente, o que contrariava a sua ideia da ressurreição universal em que acreditavam acontecer no último dia, ou seja, no fim deste mundo com a instauração definitiva do Reino de Deus: para os ocidentais, que não são judeus, mas descendentes daqueles atenienses que ouviram Paulo de Tarso a falar no Areópago do tema da ressurreição dos mortos, em que a questão acabou com zombaria enquanto outros diziam : “ A respeito disso ouvir-te- emos outra vez. “ ( Act 17, 32 ). O que, por sinal, não aconteceu. E continua assim para os ocidentais, um debate em aberto: o espantoso e perplexo para os ocidentais e, por outra parte, o estranho para os judeus.

Porém, na origem da pregação apostólica, a afirmação pascal é que Jesus morreu e foi por Deus ressuscitado. O ponto de partida da comunidade primitiva é a Páscoa e esse é o fundamento da fé cristã, a referência que une e distingue ainda hoje a comunidade cristã.

Uma vez arrancado aos limites do nosso mundo pela sua morte e ressurreição, ascendendo assim ao mundo de Deus, crer implica ter fé: “ Não está aqui, ressuscitou”! Sem a fé na ressurreição do Primogénito dos mortos só nos resta o absurdo de viver para morrer. Mas com a fé vivemos na esperança de morrer para viver, não como fanáticos mas com a fé no acontecimento Pascal, sabendo que Ele foi o primeiro de muitos, que Ele ressuscitou e nós havemos de ressuscitar com Ele. Porque Ele assumiu a nossa carne e passou pela morte mas está vivo. Ressuscitou!

Mas será que acreditamos mesmo “ ainda que alguém ressuscite dos mortos”? É que o Ressuscitado em primeiro lugar, “ não está aqui” ao alcance de ser tocado, mas só para ser alcançado pela fé. E a fé é nua e escura, é um pôr-se a caminho e caminhar sem meta conhecida, é dizer a uma montanha que se lance no mar, é atirar-se de um precipício com a certeza de que nada lhe vai acontecer. É reconhecer a limitação humana e acreditar no impossível de Deus mesmo contra toda a esperança no meio das tribulações e contradições desta vida e, sabendo, da sede insaciável do nosso desejo de felicidade e da inquietação do nosso coração, acreditar que só Deus basta, que só Ele é capaz de nos preencher e saciar de vida e de felicidade em abundância.  

Uma Santa e Feliz Páscoa!