Controlo do Destino Humano

Diamantino Bártolo
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Até que ponto se pode afirmar, e confirmar, que o Ser Humano é dono do seu próprio destino? Que o pode controlar? Trata-se de questões extremamente complexas, de difícil resposta e de poucas ou nenhumas certezas, porque são imensas as variáveis que interferem com a vida humana, com a sociedade e com o mundo, muitas das quais, escapam à previsão, controlo, verificação e resolução do próprio Ser Humano, não obstante o potencial científico, técnico e tecnológico de que dispõe, atualmente, em quantidade e qualidade.

Neste âmbito, poderá existir sim, uma crise que se agrava com a dificuldade em se explicar, cabal e inequivocamente, o “Destino” da pessoa humana, na sua componente espiritual, alma, consciência ou qualquer outra designação, que seja possível adotar, principalmente para quem acredita nesta dimensão que, provavelmente, estabelece a diferença fundamental entre o Ser Humano e um qualquer outro ser, até agora descoberto, e conhecido pela ciência.

Afirmar-se que toda e qualquer pessoa é dona do seu “Destino”, parece excessivo, na medida em que nem tudo depende de cada interveniente na sociedade. Há situações que, embora se possam prever, como por exemplo: certo tipo de patologias, acidentes de trabalho, desemprego, entre outras, a verdade é que nem sempre é possível determinar o momento exato, as circunstâncias em que vão ocorrer e as consequências que daí advirão.

A título, meramente ilustrativo, coloque-se uma hipótese real: uma pessoa que tem necessidade de viajar, todos os dias, na sua própria viatura, para o local de trabalho, ou simples passeio turístico, que dirige obedecendo a todas as normas e precauções, de repente é abalroada por outra viatura, provocando grandes estragos materiais e, eventualmente, ferimentos graves, ou até a morte, no condutor que, sem qualquer culpa, sofreu um acidente.

Seria possível prever esta situação, nas precisas condições em que ocorreu? Claro que todas as pessoas que circulam numa via qualquer, estão sujeitas a acidentes; mas como “adivinhar” que: àquela hora, naquele local, um outro condutor, provocaria uma situação, da qual não temos qualquer culpa nem responsabilidade? Se a resposta for positiva, ou seja, decifrar o que de mal nos pode acontecer, então ninguém pode circular, nem sair de casa, no limite, toda a gente tem de viver recolhida e “estaticamente”, o que, também é impossível e, mesmo assim, continua a não haver nenhuma garantia de que perduraremos vivos.

Neste mundo moderno, em que é possível questionar muitos princípios, valores, situações, comportamentos e até sentimentos, respeitando, todavia, deveres e direitos das restantes pessoas, também é verdade que há determinadas interrogações que continuam sem respostas convincentes, designadamente: aquela célebre e milenar trilogia: “Quem Sou? De Onde Venho? Para Onde Vou?”.

A existência humana é riquíssima, e este mundo moderno em que ela decorre, torna-a, ainda, mais interessante e instigadora, para que sejam introduzidas, cada vez mais, e melhores, condições de vida. Há uma busca incessante, na determinação de uma orientação para se caminhar na direção a um “Porto Seguro”, este construído em cima de valores essenciais à sociedade civilizada.

Ao contrário do que por vezes se afirma, em certos setores, o mundo moderno tem imensos aspetos positivos e: «Como ponto positivo do mundo moderno, deve ser colocado o crescimento, na consciência humana, de alguns grandes valores, como o sentido da dignidade da pessoa humana e das liberdades fundamentais. Também o sentido da tolerância e do pluralismo, por meio do qual o outro é aceito e valorizado por aquilo que é. O sentido da solidariedade, que liga os homens a um só destino, a recusa do racismo e de qualquer discriminação de ordem cultural, política e religiosa. O sentido da igualdade dos homens e da necessidade de que todos gozem dos bens da terra e dos direitos humanos essenciais. A recusa da tortura, da pena de morte e da guerra, aspirando à paz. A preferência dada à democracia como o regime político, no qual o homem é mais respeitado e suas exigências melhor satisfeitas. A valorização da mulher.» (DENNY, 2003:70).

O Controlo do destino da pessoa, enquanto entidade titular de princípios, valores e sentimentos, no espaço físico da Terra é, relativamente, conseguido, e verifica-se grande preocupação em aperfeiçoar os pontos positivos, para que a vida neste planeta seja cada vez mais fácil e aliciante.

Nesta movimentação, que cada vez é mais acelerada, nem sempre se consegue pensar no real sentido da vida humana, o que provoca alguma desestabilização e desorientação, individual e coletiva. Vivemos assoberbados por um “materialismo sufocante” e o mais importante, para um número crescente de pessoas, é o TER, quando talvez fosse fundamental lutarmos, também, pelo SER, porque é no sermos pessoas, que nos podemos realizar, com superioridade e dignidade. É no sermos verdadeiramente pessoas humanas, que nos distinguimos dos restantes seres que connosco coabitam neste planeta.

O mundo moderno, certamente, e não obstante os muitos pontos positivos, não é um “mar de rosas”, ele está, tal como a vida, repleto de “esquinas pontiagudas”, de “montanhas” e “vales” o mesmo é dizer, de “altos e baixos”. Que ninguém pense que vai estar sempre do lado bom da vida, e que nunca vai necessitar do apoio do seu semelhante. A questão radical, por isso mesmo, continua a atormentar-nos.

Com efeito: «Não só diante de acontecimentos dramáticos, mas também na frente do desaparecimento de um ente querido, defronte a um perigo de morte, na presença de uma doença grave, de um desastre financeiro, da falência de uma empresa à qual a pessoa havia vinculado todo o seu ser. Em suma, diante de tudo aquilo que, de um modo ou de outro, faz a pessoa experimentar a fugacidade das coisas, a fragilidade da existência, a futilidade daquilo que se faz, o vazio de toda a aflição para acumular dinheiro, para “vencer na vida”, para impor-se à admiração e atenção dos outros, não se pode afastar o problema do sentido da existência, daquilo que se faz e daquilo que se sofre. Que sentido tem a vida?» (Ibid.:74).

O controlo do destino humano, ou o sentido da vida, está, realmente, acessível ao poderio científico, técnico e tecnológico do homem? Claro que o homem (este termo é sempre referido aos dois géneros: homem e mulher, enfim, Humanidade), que realmente se preocupa com estas questões, que sabe que é diferente de todos os outros seres, não poderá deixar de viver angustiado, independentemente do que possam afirmar muitos outros seus congéneres.

Uma assertiva, porém, não se pode ignorar: «O homem é pessoa, isto é, um ser inteligente e livre que tem consciência de transcender, com a sua razão e a sua liberdade, o mundo da irracionalidade e do determinismo, e de ter um destino que supera aquele de outros viventes. A vida humana deve ter um sentido próprio e específico. Mas, qual? Para alguns, tal sentido seria imanente à própria vida humana. Ou seja, o sentido da vida seria viver bem, viver feliz. Ora, o que torna o ser humano feliz é ter uma boa saúde e um bem-estar material suficiente, é amar e ser amado, é a cultura, é o gozo dos bens espirituais e materiais que a vida e o mundo oferecem. O sentido da vida estaria em procurar estes bens que tornam o homem feliz, estaria, sobretudo, em gozá-los.» (Ibid.:76-77).

Neste contexto, e com tais pressupostos, poder-se-á afirmar, então, o sentido da vida humana é que toda a pessoa seja feliz, precisamente no conceito de felicidade que se acaba de citar, no qual se incluem os bens materiais, mas também, e afinal, os espirituais, como de resto sempre se tem defendido, ao longo de centenas de reflexões sobre estas temáticas.

O controlo do destino do homem, enquanto rumo e vivência para a felicidade, será, relativamente, possível, sendo certo que ninguém vai ter tudo, mesmo tudo, o que deseja da vida, até porque, é da natureza humana querer sempre mais e nunca se estar satisfeito com o que se tem.

Mas será que a felicidade, depois de alcançada, vai permanecer para o resto da vida? Dificilmente alguém poderá ter uma resposta positiva, porque: «A felicidade humana, também daqueles poucos aos quais nada falta, é, pois, insidiada e, muitas vezes, destruída pelo sofrimento. Este assume formas diferentes, podendo ser físico, espiritual e ético. Pode referir-se ao próprio corpo, ao próprio espírito, ao próprio coração. A pessoa pode sofrer a perda dos bens por uma doença, por um insucesso, por um dano que lhe é feito, pela traição de uma pessoa cara, pela ingratidão de um amigo.» (Ibid.:77).

Aproximamo-nos, portanto, de uma certeza: controlar o destino humano, o sentido para a via, é, praticamente, impossível. Todo o instrumental científico, técnico e tecnológico, o progresso e a inteligência humana, continuam a ser impotentes para dar à pessoa verdadeiramente humana, o que ela mais deseja – a felicidade total e perene, esta composta por todo um manancial de ingredientes materiais e espirituais, até porque, quanto mais não seja: «A estrutura humana faz com que o ser humano seja sempre inquieto, descontente, desiludido. Ele está sempre à procurar de uma outra coisa, se bem que pareça que nada lhe falte ou não deva desejar mais nada.» (Ibid.:81).

Bibliografia
DENNY, Ercílio A., (2003). Fragmentos de um Discurso sobre a Liberdade e Responsabilidade. Campinas, SP: Edicamp;
Para Refletir: https://www.facebook.com/diamantino.bartolo.1/videos/1552897578209315/

Com o protesto da minha perene GRATIDÃO
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo