Dimensão vaidosa do poder

A opinião de Diamantino Bártolo
0
176

A busca, por vezes desenfreada, do poder é, em grande parte das pessoas, uma característica, designadamente, naquele domínio que permite fazer depender de quem detém um cargo, um outro conjunto de pessoas que desejam, e carecem, de ver certas situações e problemas resolvidos e, por isso mesmo, há aqui como que: uma insinuação permanente de “autoridade” de um lado; e uma subserviência, por dependência, do outro, respetivamente.

Esta dimensão “vaidosa” e ostensiva do poder, leva a que alguns atores manipulem: estatísticas, projetos, promessas e pessoas, com o objetivo, óbvio, de se instalarem num “pedestal” que, por vezes, se transforma num “Trono Imperial”, que depois não querem abandonar, recorrendo, então, às mais incríveis e inaceitáveis condutas: «Muitos alcançam o poder com a ajuda e a solidariedade de outros e, logo em seguida, voltam-se contra estes, em um gesto de fria e calculista ingratidão. A criatura volta-se contra o criador.» (SANTANA, 2003:42).

Na verdade, não só na política, como em muitas outras atividades e situações da vida real, acontece a retribuição com injustiça, ingratidão, indiferença e rejeição. A ambição, o egoísmo, a hipocrisia e a bajulação, cegam determinadas pessoas que, para elas, tudo vale para alcançarem os seus fins, por mais obscuros, ilegítimos e ilegais que eles sejam.

Quando nos interrogamos, onde estão os nossos amigos verdadeiros, não raro, pensamos que os temos, e por isso, a eles nos abrimos, os apoiamos, sempre na convicção de que realmente estão a ser solidários, leais e gratos para connosco, porém, a história já nos vem ensinando que: «O maior mal que se faz a um amigo sincero é rejeitá-lo em benefício de velhos desafetos. Somente os ambiciosos são capazes de conspirar contra aqueles que lhes deram a mão e emprestaram a solidariedade nos momentos adversos. Entretanto, ao que se observa, a referida prática é adotada por muitos detentores do poder, para quem o exercício do mal é tão necessário quanto o do bem, porque, para eles, os fins justificam os meios (sejam eles quais forem). (Ibid.:43).

A “vaidade” do poder conduz a comportamentos autenticamente “camaleónicos”, na medida em que as pessoas que assim procedem, conseguem, no mesmo dia, e/ou em certos períodos de tempo, desenvolver várias personalidades, precisamente em função dos objetivos que pretendem atingir e, com esta “capacidade dissimuladora”, própria dos camaleões, rapidamente se adaptam às pessoas e situações, que lhes convém conhecer e dominar.

Infelizmente, não obstante vivermos, na circunstância, num Estado Democrático de Direito, numa sociedade livre, dita civilizada, na qual: a cidadania plena deveria ser totalmente respeitada por todos, em geral; e por aqueles que detêm um qualquer poder, em particular, estamos relativamente longe de podermos manifestar as nossas opiniões, quando discordantes de um determinado poder, e/ou do seu titular, muito embora os seus líderes afirmem que: “é salutar o confronto de ideias”.

Em Portugal, até ao “vinte e cinco de abril de mil novecentos e setenta e quatro”, existiu uma polícia que perseguia, reprimia, violentava e, por vezes, fazia “desaparecer”, fisicamente, muitos cidadãos que se opunham, apenas com as suas ideias, ao poder ditatorial, então instituído.

Hoje, primeiro quarto do século XXI, por vezes parece que: “as paredes têm ouvidos”, os “informadores democráticos” estão por aí, à espera que alguma pessoa, sincera e rigorosamente, faça uma apreciação sobre a conduta de alguém que exerce um poder qualquer, para, de seguida, a fazer chegar, frequentemente, com deturpações, à individualidade visada.

Pois bem, se o analista/crítico vier a precisar dessa pessoa que detém o poder, anteriormente observada, ou “salutarmente criticada”, provavelmente, pode esperar o resto da vida, isto se não lhe surgir uma situação incompreensíbil, um problema complexo, vindo do organismo cujo titular foi comentado. Hoje, todos os cuidados são poucos, porque a falta de humildade de alguns titulares de poder, para aceitarem a crítica, para reconhecerem os seus erros, é evidente e, então, desforram-se naqueles que tiveram a “liberdade saudável”, e sincera, a coragem democrática, de os avaliar.

Hoje, vemo-nos confrontados com muitos alegados líderes, em praticamente todas as atividades humanas, que não têm as mínimas qualidades pessoais, nomeadamente: ético-morais, princípios, valores, sentimentos e condutas humanistas, para estarem à frente de uma instituição e, se nelas continuam, é porque têm o apoio: não já de quem os elegeu; mas de quem é do mesmo nível deplorável que eles.

Qualquer que seja a organização: cívica, religiosa, política, militar, cultural, desportiva, filantrópica, ou outra, o respetivo líder deverá reunir características essenciais para o bom desempenho das funções que lhe foram confiadas, por isso: «O perfil de um verdadeiro líder molda-se a partir de componentes de inteligência interpessoal, como aptidões de coordenar grupos de pessoas e a capacidade de resolver ou evitar conflitos, negociando soluções; de possuir o talento da empatia, na arte do relacionamento, bem como, o poder de detectar sentimentos e preocupações das pessoas. São esses os líderes autênticos e naturais, que articulam, com integridade, a orientação do grupo por ele liderado, para alcance de elevadas metas e objetivos.» (Ibid.:43).

Admite-se que: se por um lado, um perfil tão complexo, quanto rigoroso, não será fácil de encontrar numa só pessoa, por muito boa-vontade que ela tenha, em realizar um bom trabalho, ao serviço da instituição e dos liderados; por outro lado, também há os autoproclamados líderes, que mais se preocupam com a exibição de um narcisismo doentio, uma autoestima que toca os limites da “vaidade bacoca”, afinal, um ego nunca satisfeito.

Para os líderes que colocam os seus egoísmos, acima dos interesses da instituição, e das pessoas, que têm o dever de bem-servir, eles não passam de autênticos “charlatães”, porque: «Mudando de personalidade facilmente, à medida que captam sinais do que as cerca, para aparecerem e fazerem-se gostar, são capazes de induzir pessoas de quem não gostam a pensar que são suas amigas. Moldam seu comportamento de acordo com as situações individuais e sociais, a depender das circunstâncias do momento, a partir do que alcançam alto índice de valorização, sobretudo na política.» (Ibid.:44).

O poder, através do qual se exerce o domínio, a subjugação, a humilhação, sobre os nossos semelhantes, infelizmente, é, assim, utilizado, em diversas circunstâncias, por muitas pessoas, as quais, à falta de atributos e méritos pessoais, procuram liderar um certo estrato da sociedade, ao mesmo tempo que exibem o culto da própria personalidade, sem qualquer atitude de modéstia e de humildade.

Há um velho provérbio que dispõe o seguinte: “Quem não sabe obedecer, não sabe mandar”; ou então um outro, segundo o qual: “Nunca sirvas a quem serviu, nem peças a quem pediu”. O exercício do poder requer, portanto, um equilíbrio psíquico-emocional, acima da média, a interiorização e boas-práticas de princípios, valores e sentimentos, genuinamente, humanistas, porque: «O poder pode ser entendido como a “capacidade que uma pessoa tem de impor à outra a sua vontade”. (…). Poder é ter possibilidade. Dispor de força ou autoridade. Ter força física ou moral. Ter influência. Ter grande influência ou poder sobre.» (Ibid.:49).

O poder é uma situação na vida de cada pessoa que o exerce, mas que não é eterno, bem pelo contrário, o detentor de um qualquer poder, quando menos espera, está a ser destronado, por alguém, por algum grupo, entretanto surgido, com novas: ideias, promessas, recursos. A História tem demonstrado que mesmo os ditadores de longa duração, acabam por cair: seja por si próprios; seja “às mãos” de um outro adversário e/ou inimigo.

Na verdade: «Ninguém é eterno no território do poder. (…). Em última análise sempre se fica sozinho e, um dia, o poder se vai. E aí se começa tardiamente a compreender que o poder não era um bem absoluto: os que o exerceram de forma absoluta não se tornaram maiores que os outros seres humanos, mas sim menores, cruéis, arbitrários; e que, mais cedo ou mais tarde, compreenderam, desencantados: o poder não foi o bastante.» (Ibid.:72).

Deploravelmente, ainda existem muitas pessoas que buscam, incessante, e até ilegitimamente, o poder, apenas para satisfação de vaidades desmedidas, prepotência sobre os seus semelhantes, por quererem alcançar uma notoriedade, eventualmente, imerecida, um estatuto que, de outra forma, talvez, jamais, o conseguiriam.

Também se pode inferir que tais pessoas procuram o poder para exercerem vinganças, retaliações, humilhações e ofenderem, quantas vezes, aquelas outras que lhes deram a mão para alcançarem este “pedestal”, que, afinal, até é efêmero. São líderes com um caráter “mafioso”: sem princípios, nem valores; nem sentimentos; ao contrário das pessoas bem formadas, e de uma sociedade civilizada. São líderes em que a soberba e a vaidade imperam nas suas condutas e posicionamentos diários. Enfim, são líderes, “com “pés de barro e cabeças vazias de caráter humanista”.

Bibliografia
SANTANA, Edilson, (2003). Arte da Política Mundana: reflexões sociopolíticas e filosóficas. Campinas, SP: Edicamp

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo