Ecos de uma visita ao museu marítimo de Ílhavo

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É sempre com agrado que visito Ílhavo e a progressiva freguesia da Gafanha da Nazaré: a primeira por ser incontornável para mim visitar o Museu Marítimo que guarda as memórias da Grande Pesca e me traz de volta as suas lembranças sempre com novos motivos; a segunda por ser lá que atracavam a maioria dos históricos navios da Frota Branca no cais dos Bacalhoeiros. E, ainda, posso acrescentar, onde conservo uma grande e antiga amizade nascida sobre as águas do Atlântico e cimentada nas geladas paragens da inóspita e, ao mesmo tempo, bela noiva do Ártico: a Gronelândia.

Desta vez o mote da minha visita teve o seu enquadramento na colaboração que prestei ao projeto “Nosso Mar” da Escola Básica do Vale do Âncora – Agrupamento Escolar Sidónio Pais e, ainda, no rescaldo das Celebrações do Dia Europeu do Mar e da Marinha comemorado por este Agrupamento de Ensino nos dias 19- 20 de Maio com diversas participações, Câmara Municipal, Sporting Clube Caminhense, Minhaventura, Nuceartes, contando ainda com as palestras da Engª Helena Cardoso ( Docapesca) subordinada ao tema “A Pesca por um Mar sem lixo” e do Professor Pedro Gomes da Universidade do Minho que desenvolveu o tema “ Fundos Marinhos da nossa Costa”. E a encerrar estes dois dias de eventos, a encenação da responsabilidade do Professor Borlido que nos presenteou com um belo destaque da memória da épica pesca do bacalhau.

Dou os meus sinceros parabéns à Escola em geral e, em particular, aos professores e alunos com quem tive o prazer de partilhar um pouco da minha experiência de homem do dóri que, como outros que ainda cá andamos, reconhecemos não poder esquecer por mais que já muitas vezes o tentássemos. Sim, não podemos esquecer uma experiência que nos marcou para sempre por mais tempo que vivamos.

Eram cerca das 8h30 da manhã do dia 21 de Maio quando partimos de junto da Escola em direção a Ílhavo para a visita ao Museu Marítimo. As crianças agitavam-se como é natural no interior das viaturas que nos transportaram. A mim, os seus risos, a sua alegria à mistura com as suas traquinices, nunca me aborreceram, pelo contrário, encantam- me. As crianças são genuínas e são assim mesmo. Sim, muito diferentes dos meus tempos de criança crescendo em regime de austeridade e disciplina repressiva, e agora genuinamente livres. Embora reconheça que dão muitas vezes cabo da cabeça dos professores e de quem de algum modo trabalha com crianças e nos pareça que haja algo a fazer pelo bem delas no sentido de serem mais atentas e aplicadas no Ensino – onde a figura do professor seja respeitada por estar ali para ensinar e não para passar o tempo a repreender – no fundo, as crianças refletem o nosso tempo à sua maneira, é incontestável. Não é por esta que deixam de ser crianças e, como tal vistas, setas lançadas pelo Arqueiro rumo ao futuro que lhes pertence.

Chegados a Ílhavo,  iniciamos a visita ao Museu. Seguimos a guia da visita dirigindo-nos à mais emblemática sala da Faina Maior onde se encontra um tipo de navio da pesca do bacalhau dos finais do século XIX e inícios do século XX. É um navio com as dimensões dos navios da pesca do bacalhau daquele tempo, um pequeno navio de apenas dois mastros, o que surge ao olhar do visitante e que pode assim, por si só, suscitar um certo espanto e a interrogação: –  Como era possível enfrentar o famigerado Gulf Stream num barquinho daquelas dimensões a navegar apenas à vela? E com os seus dóris de um só homem amarrados ao convés, a roda do leme exposta às vagas alterosas e aos ventos, onde era preciso amarrar o homem do leme para que não fosse arrastado fora da borda e o navio ficasse sem governo sujeito a ser engolido pela fúria atlântica do noroeste? Era necessário ter muita coragem, ousadia e destemor. De resto, com aquelas dimensões do navio, os compartimentos onde os pescadores se alojavam, à proa, o chamado “rancho”, fácil é imaginar o quão exíguo era. E ali se acomodavam os pescadores em beliches sobrepostos onde só cabia mesmo o corpo estendido e extenuado pelo trabalho arriscado e intenso; os beliches dispostos a um bordo e a outro do casco do navio e ao centro a pequena mesa onde eram tomadas as parcas refeições. A água era racionada, não havia higiene, os piolhos e as pulgas pululavam e o banho durante seis longos meses só se fosse quando algum homem caísse ao mar ou fosse arrastado pelo convés durante uma tempestade embrulhado por uma vaga que o varresse.

No rancho apertado, a atmosfera era de uma mistura de cheiros da gueira, das roupas suadas e sujas, dos odores fisiológicos, do fumo do tabaco da pana que às vezes parecia nevoeiro, a luz ofuscada de um candeeiro. E, sempre que o tempo permitia, os louvados às quatro horas da manhã nunca faltavam a acordar os homens para a grande jornada de pesca nos insignificantes dóris de um só homem, o dóri português. Era assim:

                “ Louvado e adorado santo nome de Jesus

                Por causa de nós irmãos, ‘stá Deus pregado na cruz.

                Deus ‘stá pregado na cruz e morreu p’ra nos salvar,

                Ó de baixo chega acima que de cima ‘stá a chamar”.

Até aqui a cantar, com aquela música saudosa que vinha do tempo das Descobertas depois, com voz forte e firme:

                “- São quatro horas! Olha que vai arrear!”

E, em seguida, todos os homens saiam dos seus beliches já vestidos, porque assim dormiam com as mesmas roupas com que trabalhavam, e era só calçarem as botas enormes de cabedal para se protegerem do frio penetrante, confortáveis para os pés, mas pouco práticas para deslocações rápidas de ter de passar de um lado para outro. Depois do pequeno – almoço e do avio do foquim, uma caixa de madeira de forma meio cónica, com um pouco de pão e duas postas de peixe frito em banha de porco – era esta a refeição para todo o dia passado a pescar – os pescadores aguardavam no convés as orientações do capitão e a ordem de arriar:

                -“ Arreia com Deus!”

E os dóris, de um bordo e de outro do navio eram lançados à água com cada pescador a bordo. Era a partir dali que o pescador se sentia capitão do seu dóri que dirigia segundo o seu palpite e passava na maior solidão, por vezes encoberto pelo denso nevoeiro daquelas paragens. Largar e alar as linhas de pesca, zagaiar, horas e horas a pescar o fiel amigo até carregar o dóri. Depois, o regresso feliz ao navio- mãe, ou a tristeza de uma pesca sáfara. Vida dura, a do homem do dóri!

À ré, era outro mundo, o capitão e o piloto. Podiam descansar em camarotes e ter melhores refeições. Tinham, todavia, grandes responsabilidades. Mas os verdadeiros heróis eram os pescadores.

Nesta visita ao Museu de Ílhavo, apreciei a curiosidade de uma criança que me pediu para me fotografar ao leme. Ela queria gravar a posição do timoneiro a bordo daquele navio. Depois interrogou-me sobre como se salgava o bacalhau no porão, pedindo-me explicações sobre o processamento da escala e salga do bacalhau, tendo o cuidado de colocar o seu telemóvel no modo de gravação.

Em seguida, todas as crianças viram pela primeira vez os bacalhaus vivos a nadar no aquário do Museu e ficaram a saber que aquele peixe não é espalmado como se vende nas lojas e supermercados.

A viagem de reconhecimento da Grande Pesca por certo que acrescentará novos conhecimentos aos pequenos visitantes. Quero dizer-lhes que gostei muito de os acompanhar com as suas professoras sempre atentas e que tudo fizeram para que os seus alunos aproveitassem esta viagem para aprender e passar o dia em saudável convivência.