Faleceu o Professor António Baptista Lopes

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Foi com pesar, mas com profunda gratidão, que D. António Luciano dos Santos Costa, Bispo de Viseu, comunicou o falecimento inesperado do Professor António Baptista Lopes (e também sacerdote na paróquia de Povolide).

Tinha nascido a 20 de agosto de 1938 na paróquia de France onde residia. Quando nada o fazia prever, veio a falecer na tarde do dia 23 de maio de 2022, no Centro Sócio Pastoral que dirigia e após um curto internamento.

Como pároco, iniciou a sua formação académica no Seminário Menor de São José em Fornos de Algodres, transitando depois para o Seminário Maior de Viseu onde concluiu o curso de teologia.  Foi ordenado sacerdote a 4 de agosto de 1963. Atualmente era pároco da paróquia de Povolide, no arciprestado de Viseu Rural, onde era muito estimado por toda a comunidade paroquial.

Foi Prefeito e Professor de diversas disciplinas no Seminário Menor de São José em Fornos de Algodres, onde se tornou um exímio professor e mestre de muitas gerações de seminaristas e jovens, sendo muito apreciado por todos. Posteriormente foi nomeado pároco de São João de Lourosa, no concelho de Viseu.

Dispensado do serviço paroquial foi para a cidade do Porto, a fim de frequentar a Faculdade de Letras onde concluiu o Doutoramento com distinção, em 2002, defendendo a tese “Proto-História e Romanização do Baixo Minho”. Reconhecida a sua mestria, integrou o corpo Docente da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde se tornou um professor sábio, de reconhecido talento e apreciado por todos. Aposentado como professor da Universidade do Porto, regressou à Diocese de Viseu onde se integrou na vida paroquial com um verdadeiro discípulo missionário. 

Porém, desde finais da década de 1970, cedo se ligou a Vila Praia de Âncora, ao Vale do Âncora e ao concelho de Caminha. Sob a direção do Professor Armando Coelho, dirigiu as escavações na Cividade de Âncora-Afife e no Coto da Pena, organizando, posteriormente o Museu Municipal de Caminha. Cruzei-me, então, com o Professor, sem o reconhecer ainda, na Junta de Turismo de Vila Praia de Âncora, já que foi outro grande Homem e Pioneiro – o Dr. Francisco Sampaio – quem dinamizou as escavações. Cruzei-me de novo em 2004, de forma rápida, aquando das Jornadas de História, Ambiente e Urbanismo e vários dias de conferências organizadas pela Junta de Freguesia de Vila Praia de Âncora,

Poucos anos depois, abraçou com todo o entusiasmo a organização do Núcleo Museológico do Vale do Âncora a convite do Dr. José Luís Presa e a instalar no Centro Social e Cultural de Vila Praia de Âncora. Através de um protocolo estabelecido com o NAIAA, o espólio recolhido nas escavações da Cividade foi meticulosamente exposto, para além dos reconhecidos Picos Ancorenses, a construção de réplicas do Dólmen da Barrosa, da Casa Castreja ou dos Balneários, e tantas outras peças cedidas por benfeitores para o Núcleo e que, anualmente, iam enriquecendo as Mostras anuais.

Amigo e Mestre, de um humor irresistível e sempre pronto a ajudar, com ele aprendi imenso – distinguir um pico ancorense de um pico asturiense, reconhecer a importância da construção de dólmens e da sedentarização do Homem Ancorense, da sua evolução até à ocupação do território do Vale, as gravuras rupestres e os seus múltiplos significados, a reconhecer as pastas e as cerâmicas indígenas castrejas, as funcionalidades das casas, a vida comunitária dos castros, a progressiva romanização das estruturas castrejas através das moedas, das sigilatas, das ânforas e duas diferentes tipologias, o papel das chefaturas ao longo do tempo e a sua hierarquização… Voluntários e cúmplices, trabalhámos até à exaustão, a montar pacientemente o espaço, entre histórias, gargalhadas e anedotas.

Sinto a sua falta, a sua alegria, os seus conselhos, os telefonemas à distância, já de novo recolhido na sua paróquia, sempre que tinha dúvidas de qualquer espécie… Ficou por concretizar uma nova escavação para enriquecer o espaço museológico do Núcleo…

Desde então observo com detalhe os seixos da praia e pequenos cacos cerâmicos, os sulcos de alguma pedra curiosa encravada numa parede, procuro imitar e decifrar insculturas ao seu jeito, com papel vegetal e lápis… Só posso agradecer a sua imensa sabedoria e a sua infinita Amizade.

Aurora Botão Rego