Ficção Política

Diamantino Bártolo
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Dando por adquirido, salvo as deploráveis e, eventualmente, cada vez mais exceções, que a Política também se desenvolve na busca da realização de utopias, a verdade é que, muitos são os exemplos de que os sonhos, transformados em promessas, não passam disso mesmo, com graves consequências negativas, para a imagem nobre que a Política deveria transmitir.

A sociedade atual, primeiro quarto do século XXI, é extremamente complexa, exigente, e, cada vez mais, melhor preparada para enfrentar um novo mundo de avanços científicos e tecnológicos, de satisfação de necessidades, nem todas de natureza essencial, porque muitas têm uma dimensão supérflua, que tentam preencher vaidades desmedidas, incompatíveis com o sofrimento, resultante da miséria em que ainda vivem milhões de pessoas.

O conceito, usualmente conotado ao vocábulo “utopia”, de facto leva o Ser Humano a sonhar para além da realidade que o circunda, permite-lhe elevar-se a um mundo que, dificilmente, alguma vez, conseguirá construir, porque: «As religiões prometem esse mundo onde não haverá iniquidade, sofrimento e dor. Um mundo de felicidade, e uma só palavra para paraíso. A política, de igual, promove a crença de que o futuro será melhor do que o presente, satisfazendo as necessidades psicológicas do homem, obtendo renovadamente a adesão do povo.» (SANTANA, 2003:11).

Há quem considere que a “classe política”, aqui entendida no sentido da governação, naturalmente deve apresentar propostas “utópico-realistas” e, passe a aparente contradição, porque são utópicas, no momento em que são desveladas e, não raro, pela primeira vez; mas, também, realistas, porque suscetíveis de serem concretizadas, para o bem-comum, ou seja: o que no passado não existia ou seria mesmo um sonho, hoje pode tornar-se realidade e há bastantes exemplos que tal tem acontecido – a viagem à lua, em 1969, pode aqui ser recordada, que durante séculos foi, efetivamente, uma utopia.

A atividade política, no âmbito de um Governo, que dirige um país, está sempre sob escrutínio e, também, pressionada por interesses de vária ordem que, por sua vez, influenciam os políticos das diversas áreas de intervenção, podendo-se admitir que: «Amordaçada, a classe política é presa fácil dos interesses económicos (deste ou daquele grupo de empresas) ou de interesses de “categorias” de todo o género (da superestrutura tecnocrata que, de fato, controla o país, ou das diferentes “comunidades” regionais, religiosas etc. que o compõem), todos buscando domínio e poder político, para dirigi-lo no sentido de suas ideologias, nem sempre compatíveis com a vontade da nação.» (Ibid.:13).

É sabido que, seja em ditadura, seja em democracia, os povos são governados por uma minoria. Na primeira situação, uma minoria que, pela violência, repressão, perseguição e golpes, os mais diversos, se apoderará, ilegal e ilegitimamente do poder; no segundo caso, uma minoria, porém, eleita pela maioria do povo, em eleições livres, justas e transparentes.

Obviamente que, qualquer que seja o governo: Autocrático, Democrático, Oligárquico, Teocrático, Comunista, entre outras formas possíveis, puras ou híbridas, deveria preocupar-se com o “Bem-Comum”, com a melhoria, sempre renovada e consolidada das condições de vida do povo que pretende servir, ou melhor, que tem o dever indeclinável de proteger, de lhe proporcionar conjunturas favoráveis à realização plena da felicidade.

Nenhum Governo se constrói sem o contributo dos cidadãos (mulheres e homens, naturalmente), e estes são indispensáveis para a realização dos sonhos e das utopias da comunidade em geral, e de cada pessoa em particular. As/os cidadãs/ãos são a parte nuclear da cidadania plena, por isso: «Reduzir o cidadão a mero sujeito econômico é retirar-lhe a condição de cidadania e reduzir a política à luta pelo poder entre as elites; é intolerável à democracia, que não prospera nesse contexto, estando a exigir plena e absoluta independência, caso não queira esfacelar-se em meio à globalização.» (Ibid.:18).

O exercício do poder democrático, implica a disputa eleitoral, observando princípios, valores e condutas ético-políticas, consentâneos com os interesses legais e legítimos do povo, nunca, em nenhuma circunstância, contra aqueles que, afinal, através da “arma” mais poderosa, em democracia, tem a possibilidade de decidir, que é o voto livre, secreto, direto e responsável.

É comum, embora profundamente inaceitável, que os candidatos ao poder, recorram a diversos expedientes, para conquistarem a adesão e o voto populares, e, nesse sentido, apresentem os seus programas eleitorais, com projetos, por vezes mirabolantes, que, presumivelmente, não serão exequíveis e/ou, pelo menos, de difícil realização. Projetos utópicos, talvez impossíveis de concretizar para terem resultados positivos, na qualidade de vida das pessoas.

A utopia, por vezes, tenta passar por uma realidade possível de materializar, a curto e/ou médio prazos. A verdade é que qualquer cidadão (mulher ou homem), não deveria ignorar a situação do organismo ao qual concorre, salvo se existem aspetos que estão “escondidos”, porém, ainda assim, a probidade e o respeito pelo cidadão eleitor, sempre aconselham a que não se prometa aquilo que não se tem a certeza de poder cumprir no mandato, para que se candidatou.

É do conhecimento generalizado que alguns pretendentes a um cargo político, aquando em campanha eleitoral, recorrem, frequentemente, a “esquemas” ardilosos, para conquistarem o maior número de votos, sabendo eles que estão a faltar à lealdade para com os seus eleitores e, daqui à inverdade é um “salto de pardal”, ou seja, quase nada.

Considera-se serem ilegítimas a opacidade e a ambiguidade de alguns políticos, e outros candidatos a um qualquer poder, para além da imagem negativa e prejudicial que passam para a democracia: «Por conseguinte, a arte da mentira e da astúcia é praticada com êxito na referida ambiência política e não se convencem os mandatários de que não há maior castigo que uma mentira desmascarada. Na verdade, a mentira produz mais mal do que bem para a política, porque, embora possa ensejar sucesso no presente, criará, inevitavelmente, uma atmosfera de suspeita que será sério obstáculo ao sucesso no amanhã.» (Ibid.:24).

Enquanto alguns políticos, e quaisquer outros candidatos a cargos públicos, e instituições privadas, de diversa natureza, onde se incluem as de Solidariedade Social, utilizarem processos de persuasão para a captação dos votos, sem que depois assumam a responsabilidade por cumprir o que entretanto haviam  prometido, não restam grandes dúvidas que a política, em muitos domínios, não passará de uma utopia que, dificilmente, se concretizará em realidade.

Apesar de todas as dificuldades apontadas, é importante, urgente e necessário não descredibilizar a política, e os que dela fazem o seu modo de vida, com rigor, seriedade, “profissionalismo” e humanismo, por isso, é nestes cidadãos (mulheres e homens) que é preciso apostar, acreditar e incentivar, porque: «O político é, antes de tudo, um amante do poder. Para ele, o poder é uma paixão pela qual se sacrifica, arrisca-se e negligencia a própria vida. Sabe conquistar o favor das massas. Desse modo, quem entra em política logo sabe que está jogando com a vida e a morte; aceita esse jogo e não mais controla o seu destino.» (Ibid.:26-27).

Nos tempos difíceis que o mundo atravessa, em que a ganância pelo poder, qualquer que este seja, principalmente quando dele se retiram benefícios pessoais, não olha a meios para se atingir certos fins, logo, há todo o interesse em afastar quem não está imbuído de princípios, valores, dimensões humanistas, sentimentos nobres e projetos para o Bem-comum, porque a carência de cidadãs/ãos íntegras/os, altruístas e desinteressadas/os de notoriedade, mordomias e benefícios materiais será, efetivamente, o ponto de partida para uma sociedade de sonhos, de felicidade, de paz, enfim, de utopias, desejavelmente, possíveis de realizar a curto prazo.

Selecionar as boas pessoas, para o exercício dos diversos poderes na sociedade, deve ser um primeiro requisito, justamente a partir de critérios pré-estabelecidos, e do conhecimento que se tem dos candidatos, nas suas diferentes vertentes humanas, porque: «Hoje, mais do que nunca, faz-se necessária a compreensão da arte de governar em benefício do Estado e dos cidadãos, com arrojo e determinação, buscando satisfazer aos interesses e aspirações da sociedade, resistindo aos insidiosos convites à administração desidiosa.» (Ibid.:40).

Existe a necessidade de acreditarmos nas virtualidades da política, como há toda a conveniência em conservarmos um otimismo moderado, ter esperança de que as novas gerações saberão fazer mais e melhor, todavia, sempre que possível, e apetecível, em colaboração com os moderados das gerações anteriores, porque neste projeto de “Cidadania Plena”, não se pode, nem deve, excluir ninguém.

Todos seremos poucos para construirmos uma sociedade de sonhos, de utopias, enfim, um mundo bem melhor do que aquele que nós, os mais “velhos”, estivemos a tentar construir, certamente com alguns aspetos negativos, mas também com muitos pontos positivos.

É necessário manter ativas/os as/os cidadãs/ãos que desejem participar neste projeto, porque muitas serão as vantagens nesta simbiose de gerações. Seria de uma insensatez imensa, continuar a manter as pessoas mais idosas inativas, a definhar num qualquer estabelecimento de terceira idade, quando muitas delas têm, ainda, muito para dar à sociedade.

É urgente promover o “Envelhecimento Ativo” da nossa população sénior, porque todos temos uma dívida de gratidão para com essas pessoas, além de se vir a perder um património de conhecimentos, experiências e sabedoria, que elas transportam ao longo de décadas.

Bibliografia
SANTANA, Edilson, (2003). Arte da Política Mundana: reflexões sociopolíticas e filosóficas. Campinas, SP: EdicampVenade/Caminha – Portugal, 2020

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo