FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO DA CRIANÇA NA CONCILIAÇÃO DE PARADIGMAS

Diamantino Bártolo
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A humanidade vive, atualmente, na dependência direta de algumas áreas científicas, à cabeça das quais se podem colocar a medicina, a biologia, a genética, as engenharias, com todas as suas especialidades. Esta situação é normal, considerando que um dos maiores bens que a pessoa pode possuir é a saúde, a que se segue o seu bem-estar geral, psíquico, espiritual e material.

O paradigma científico constitui, relativamente a diversos domínios do conhecimento, um avanço e um bem para a qualidade de vida das pessoas, que sendo complementado, ou coadjuvado, pelo paradigma tecnológico, possibilita a resolução dos problemas que afetam a existência físico-biológica do ser humano. A sociedade pode e deve agradecer às comunidades científicas e técnicas, o que de melhor usufrui atualmente. Mas a sociedade não pode ignorar que o homem comporta outras dimensões, outros objetivos, outras realizações.

Aos paradigmas científicos e técnicos, deve-se acrescentar a preocupação por outras possibilidades de concretização de conhecimentos e comportamentos, que em muito podem ajudar na formação de uma vida, ainda mais motivadora e gratificante, uma vida de boas-práticas a partir da aprendizagem, interiorização e implementação dos futuros paradigmas axiológicos, ético-morais. Então sim, a humanidade terá as condições necessárias e suficientes para resolver grande parte dos problemas que ela própria cria, e hoje vem enfrentando.

Uma nova filosofia da educação, que não exclua nenhum ramo do conhecimento, nenhuma técnica, que proporcione mais comodidade para o homem, uma filosofia que conceptualize uma educação e uma escola do futuro, que abrigue os projetos verdadeiramente dignos da superior condição humana, na medida em que: «Os meios e os fins da educação devem ser completamente remodelados para satisfazerem as exigências da actual crise cultural e se harmonizarem com as descobertas das ciências do comportamento. A importância das ciências do comportamento reside no fato de nos habilitarem a descobrir os valores em que os homens acreditam mais vigorosamente, quer esses valores sejam universais ou não.» (KNELLER, 1979:79).

Na verdade, não basta a população ter saúde, bem-estar material e bens de ostentação, se não houver paz, segurança, harmonia, compreensão, tolerância, justiça, respeito, autoridade, entre outros valores que, em princípio, a maioria das pessoas deseja, mesmo quando estão doentes, não deixam de pensar em tais valores, porque eles são essenciais à superior condição humana.

O mundo sempre atravessa diversas crises e, ao longo da História da Humanidade, têm sido muitas as situações idênticas, de natureza diferente, repercussões mais ou menos graves; da religião à política, sociais, económicas, pestes e epidemias mortíferas, guerras fratricidas.

Apesar da conflitualidade sempre presente; das consequências terríveis que têm atingido a sociedade; ainda não se aprendeu e implementou a solução adequada e que, reconhecendo-se ser difícil, é exequível, justamente a partir da educação e formação da criança, do adolescente, do jovem, e tentar, também, junto do adulto, principalmente no seio das famílias e nos locais de trabalho.

Pensar em melhorar o mundo não é uma utopia para os cidadãos responsáveis, poderá sê-lo para os céticos, extremistas e todos aqueles que estão a beneficiar com esta situação de permanente conflitualidade, e hegemonia de uma minoria sobre uma maioria de oprimidos. Não está em causa quem governa democrática e legitimamente. Contesta-se, isso sim, quem se serve do poder para “esmagar” aqueles a quem devem esse mesmo poder.

Uma nova filosofia para a melhoria da educação, através do enriquecimento dos paradigmas técnico-científicos, poderá ser um bom princípio a incutir nas crianças de hoje, e que no futuro serão os adultos que irão governar o mundo, em todos os setores da intervenção humana. O enriquecimento dos atuais paradigmas passa pela introdução de valores, boas-práticas, virtudes e sentimentos verdadeiramente humanos.

O cientista, o técnico, o pragmático, serão tanto mais humanos quanto melhor integrarem nos seus comportamentos sócio-profissionais as regras da boa-convivência, da responsabilidade e do compromisso. O homem, independentemente do seu estatuto, deverá ser um cúmplice, leal e firme no exercício de práticas saudáveis, no relacionamento com os outros, sem ter que abdicar dos seus valores, direitos e deveres, obviamente, num quadro jurídico-legal e legitimamente institucionalizado, à luz da sua própria cultura antropológica. Um ser comprometido com a sociedade que escolheu para viver e conviver. Um ser engajado com as soluções que propiciem um futuro melhor para a humanidade.

Atualmente, verifica-se grande dificuldade, praticamente, em todas as atividades, em as pessoas assumirem responsabilidades, comprometerem-se com a efetivação de determinadas práticas e comportamentos, recorrendo-se, exaustivamente, a uma postura que, diplomaticamente, se convencionou denominar do “politicamente correto”, permanecendo-se em posições dúbias, não assumindo o “sim”, nem o “não”, mas como se diria na gíria, o que será mais seguro é o “nim

Ninguém se quer comprometer e assim ninguém é responsável por nada, o que, em bom estilo português, “a culpa deve morrer soleira”, isto é, não tem responsáveis. Impõe-se uma educação para o compromisso, para a responsabilidade, até porque será no comprometimento que a solidariedade, a amizade, a lealdade, a reciprocidade, a consideração, a estima e o humanismo, têm a oportunidade de melhor se manifestarem.

São valores que conduzem a comportamentos que se integram perfeitamente na realidade técnica, científica e paradigmática, porque o compromisso, responsavelmente assumido, também é real, ativo e um elemento fundamental nas boas-práticas.

De facto: «Na medida em que o compromisso não pode ser um acto passivo, mas praxis-acção e reflexão sobre a realidade – inserção nela, ele implica indubitavelmente, um conhecimento da realidade. Se o compromisso só é válido quando está carregado de humanismo, este, por sua vez, só é consequente quando está fundado cientificamente. Envolta, portanto, no compromisso do profissional, seja ele quem for, está a exigência de seu constante aperfeiçoamento, de superação do especialismo, que não é o mesmo que especialidade. O profissional deve ir ampliando seus conhecimentos, em torno do homem, da sua forma de estar no mundo, substituindo por uma visão crítica a visão ingénua da realidade, deformada pelos especialismos estreitos.» (FREIRE, 1983:21).

Valores, regras, boas-práticas, fruição de direitos, cumprimento de deveres, constituem aspetos exclusivos da condição humana, enquanto entidade pensante, comprometida, dialogante e cooperante com os seus iguais, em particular; e com toda a natureza, em geral. Nada, nem ninguém, substitui o ser humano em plenitude, excetuando, obviamente, Deus que tudo pode.

O comportamento, adequado a tais dimensões humanas, deve ser adquirido ainda no berço e sempre melhorado. O homem, antes de mais, é um ser pensante, atuante, interrogativo e esclarecedor; problemático e solucionador; material e espiritual. Os sucessivos obstáculos, que lhe surgem ao longo da vida, vão sendo vencidos, contornados, adiados ou ignorados, mas o seu pensamento vai estar previamente presente a qualquer solução prática, técnico-científica.

O homem é um ser comprometido com a reflexão, com a praxis e, correlativamente, com os domínios disciplinares da educação, da formação, da filosofia, esta, uma área do conhecimento com um percurso milenar, porque ela: «(…) exige um processo no qual toma distância com o problema para poder compreendê-lo totalmente e ver a sua implicação em nossa vida concebida como um todo. (…) se a filosofia é o que nos instrui a viver, e que é instrutiva tanto na infância quanto para as outras idades, porque não se transmite?” (Montaigne). “Será porque os poderes de todos os tipos temem que os indivíduos descubram seus recursos internos e se ponham a pensar por si próprios?» (COHEN-GEWERC, (2007:61).

Os comportamentos técnicos, científicos, paradigmáticos e da especialização, certamente serão muito melhor compreendidos, e proporcionarão um bom ambiente humano na comunidade técnico-científica, se forem integrados num contexto humanista, a partir da interdisciplinaridade.

A ciência e a técnica, no que à educação e formação profissional respeitam e forem aplicáveis, muito podem beneficiar e com elas os seus executivos se, desde bem cedo, se ensinar as crianças a pensarem, a serem críticas construtivas perante os factos reais, objetivos e quantificáveis, que são apresentados pelas denominadas ciências exatas.

Uma nova filosofia para a educação implica estudo e práticas filosóficas, também estas o mais cedo possível na vida de cada pessoa. As crianças devem ser um alvo preferido, dado que nas suas precoces idades estão recetivas à curiosidade, a tudo o que é novo, são especialistas na arte dos “porquês”, então a filosofia deveria ser um domínio disciplinar do conhecimento que, transversalmente, se inter-relacionaria com todas as restantes áreas da atividade humana, por isso se justifica que: «A proposta de ensinar filosofia às crianças está na prática do desenvolvimento do bem pensar ou pensar bem, das nossas habilidades cognitivas.» (PAGENOTTO, 2006:23).

Bibliografia

COHEN-GEWERC, Elie, (2007). “Problema e Filosofia”. In Filosofia, Ciência & Vida. São Paulo: Escala. Nº 6, pp. 60-61
FREIRE, Paulo, (1983). Educação e Mudança. 8ª Ed. Trad. Moacir Gadotti e Lillian Lopes Martin. Rio de Janeiro – Brasil
KNELLER, George F., (1979). Introdução à Filosofia da Educação. 5ª Edição revista e actualizada. Nova Tradução. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar Editores
PAGENOTTO, Maria Lígia (2006). “Perguntas Constantes. Respostas Necessárias”. In Filosofia, ciência & vida. São Paulo: Escala. Nº 1, pp.16-23

Com o protesto da minha perene GRATIDÃO
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo