FORMAÇÃO PROFISSIONAL NA ORDEM DO DIA

PRESIDENTE DA ANESPO EM ENTREVISTA AO CORREIO DA MANHÃ
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O nosso Diretor, José Luis Presa, que exerce, simultaneamente, as funções de Diretor da ETAP – Escola Profissional e Presidente da Associação Nacional de Escolas Profissionais deu uma entrevista ao Jornal Correio da Manhã publicada na Revista sobre Educação que, pela sua relevância e acuidade, reproduzimos:

– Como olham para o atual panorama da Formação Profissional no nosso país?

Olhamos com alguma preocupação porque Portugal está em contraciclo com os restantes países da União Europeia e da OCDE. Verifica-se que os países mais avançados, económica e socialmente no espaço europeu são os que mais apostam na formação profissional. Em Portugal a percentagem de alunos que frequentam o ensino secundário, em percursos de qualificação profissional, anda nos 32 %, contrastando com a média de 55%  na União Europeia e, muito mais, com os 70% dos alunos em percurso qualificantes, nos países do norte da Europa, designadamente, a Suécia e a Noruega. 

– Quais são os principais desafios que ainda se colocam neste campo em Portugal?

A ANESPO entende que é urgente atuar por forma passar dos atuais 32% dos alunos que frequentam cursos profissionais nas escolas secundárias, públicos e privadas, pelo menos, para os 50% que constam do Plano Nacional de Reformas, a que o governo está vinculado. Sabe-se que, durante o governo anterior se desinvestiu no ensino profissional e o atual governo, tem feito algum esforço para relançar as formações qualificantes de dupla certificação, mas, infelizmente, sem grandes resultados em termos quantitativos.

Se atendermos a que, no ensino secundário, só há duas vias relevantes: cursos científico-humanísticos e cursos profissionais, aumentar os alunos numa das vias, significa reduzir na outra. Não há milagres e se nada for feito, de forma consistente e objetiva, no sentido de alinharmos com a Europa, marcaremos passo, e quem sofre as consequências são os alunos e as empresas que precisam de mão-de-obra qualificada. 

– O que pode ser feito para resolver essas situações?

Exige-se que o governo se adote uma linha de ação política que vá no sentido de aprovar, progressivamente, mais turmas de cursos profissionais, e menos turmas de cursos gerais. Se estas medidas não forem tomadas e se estivermos à espera que haja uma regulação natural, ficará tudo na mesma. Se se continuarem a verificar as lógicas corporativas que afetam as escolas públicas e privadas, nada muda. 

Para além disso, importa que se tenha em conta que as escolas devem responder às necessidades das empresas e que os jovens e as famílias precisam de ter mais informação sobre as diferentes saídas profissionais para poderem fazer opções conscientes e informadas o que significa proporcionar-lhes um encaminhamento para os cursos, alinhado com as vocações dos alunos.

– O ensino profissional em Portugal já é visto como uma alternativa efetiva e credível ao ensino universitário?

O ensino profissional não é alternativo pois integra-se no ensino secundário e é desenvolvido para cumprimento da escolaridade obrigatória e destina-se a formar os quadros intermédios para as empresas. O ensino superior integra-se no ensino pós-secundário e é desenvolvido nas Universidades e Politécnicos, tendo como objetivo formar quadros superiores.  

– Em termos de empregabilidade, a Formação Profissional tem maiores taxas de sucesso? 

Os alunos dos cursos profissionais não têm qualquer dificuldade em encontrar emprego. Sabendo-se que a percentagem de alunos que frequenta os cursos profissionais nas escolas públicas e privadas é de apenas 32% não restam dúvidas sobre a empregabilidade. O problema da empregabilidade coloca-se aos alunos que frequentando cursos gerais e chegam ao final do ensino secundário sem qualquer qualificação profissional. Importa que se tenha em conta que mais de 20% dos alunos que frequentam os cursos gerais no ensino secundário, chegam ao final do percurso sem qualquer qualificação profissional e também não são diplomados pelo ensino superior. 

– Como olham para o conceito de ensino Dual que Portugal pretende “replicar” a partir do exemplo alemão?

Nós não precisamos de replicar o modelo dual da Alemanha porque temos um modelo que é admirado e cobiçado por muitos países e, também, pelos alemães. Os muitos milhares de alunos que foram diplomados pelas escolas profissionais consideram-se muito realizados e valorizados escolar e profissionalmente. 

O que precisamos é de fazer chegar aos jovens e aos pais e encarregados de educação informação sobre as vantagens dos cursos profissionais pois Portugal tem uma matriz curricular e uma qualidade da formação que compara bem com o que de melhor se faz na Europa.

– Que impacto esperam das novas regras para facilitar a entrada de estudantes que vêm das escolas profissionais no ensino superior?

.De qualquer modo, a nossa posição é clara: os alunos das escolas profissionais fazem qualquer exame desde que esteja alinhado com os conteúdos programáticos ministrados na escola, exigem que se tenha em conta outras dimensões do percurso escolar como sejam as PAP – Provas de Aptidão Profissional e os estágios feitos nas empresas.

O que não aceitamos é que se obriguem os alunos a ser “carne para calhão” ao serviço dos rankings das escolas. Não aceitamos que os alunos em vez de estudarem e adquirirem competências, passem metade do tempo a repetir exercícios idênticos aos que vão sair nos exames para que o grau de sucesso seja aceitável e não ponham em causa a imagem interna e externa das escolas.

O que queremos é que aumente o número de alunos com cursos profissionais a frequentar cursos superiores e continuar a ouvir os Reitores das Universidades e dos Institutos Politécnicos a dizer que os alunos oriundos dos cursos profissionais são os melhores alunos no ensino superior.

– Há dados relativamente ao numero de inscrição no ensino profissional no ultimo ano? Quais os cursos mais procurados?

Em média, frequentam cursos profissionais nas escolas das nossas associadas 12.000 alunos em cada um dos anos: 10º, 11º e 12º, o que totaliza 36.000 alunos nos três anos dos cursos.

– Quais os novos cursos, aprovado para o próximo ano?

Não dispomos ainda desses dados, mas não deve haver grandes oscilações relativamente aos anos anteriores. Os cursos a aprovar são os que constam do Catálogo Nacional de Qualificações devendo abarcar cerca de 125 itinerários de formação diferentes, cobrindo as principais áreas de formação.

– É difícil identificar uma tendência clara na procura do ensino profissional, entre subidas e descidas sucessivas no número de alunos inscritos de ano para ano. O que tem contribuído para essa variação que parece não deixar consolidar de vez esta alternativa?

Considero respondido antes.

– Como se posiciona a ANESPO ao nível da formação profissional em Portugal?

A ANESPO tem feito muito trabalho em termos de dignificação do ensino e formação profissional sensibilizando o governo e os diferentes atores ligados ao mundo empresarial e sindical. Procuramos contribuir para reduzir o insucesso e o abandono escolar e dotar os jovens e competências específicas e transversais que façam deles bons profissionais e bons cidadãos.  

– Com quantos associados contam atualmente?

Temos 152 associados e cerca de 200 estabelecimentos de ensino, pois há várias escolas com Sedes e Polos. 

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