Não Vale Tudo.

Opinião de Diamantino Bártolo
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opinião

Acontece, com relativa facilidade, misturar-se amizade pessoal, e/ou relações amistosas, cordeais e de grande respeito, com projetos e atividades, que na maioria das vezes, resulta em graves conflitos e que, no limite, são levados à prática, através de comportamentos inadequados: quer contra a pessoa vitimada; quer contra os seus familiares e amigos íntimos. Por isso é do mais elementar bom-senso que se tenha o cuidado de separar valores, sentimentos, sofrimentos e projetos, atividades e resultados esperados, legítimos e legais.

Dever-se-ia defender, e praticar que: valores, sentimentos e amigos íntimos, ou pelo menos relações cordiais, amistosas e respeitáveis são, em quaisquer circunstâncias, ou deveriam ser, inegociáveis, distintas, separáveis, até porque, havendo tal preocupação, o relacionamento humano, afável é perfeitamente possível, desde logo na base da não ingerência na vida privada de cada pessoa, e na compreensão pelos direitos e deveres que assistem aos nossos semelhantes, tão dignos quanto nós.

Misturar argumentos de natureza político-social, estatutário-profissional. ou de simples relacionamentos pessoais: com o direito à privacidade de cada pessoa; com o direito à sua própria dignidade, honra e bom-nome revela, sem dúvida, o nível de educação e formação, valores e sentimentos de quem envereda por estas práticas desleais e, nestas circunstâncias, haverá indícios do que se pode esperar de tais criaturas, sempre que elas tiverem algum poder sobre quem delas venha a necessitar, ou lhes faça qualquer tipo de concorrência, ainda que legítima e legalmente, num qualquer projeto, numa dada atividade.

Por vezes, verifica-se que em determinados períodos, certas pessoas parecem nossas amigas, que até nos “ajudam” a resolver algum problema, cumprimentam-nos efusivamente, com largos sorrisos, até nos convidam para uma mesa de um café, para tomar alguma coisa, enfim, tudo são “amabilidades”. Frequente e ingenuamente, acreditamos e abrimo-nos com essas pessoas, comentando temas, situações, desejos, desabafos, porque pensamos que estamos com uma pessoa de bem, idónea, amiga, sincera e confiável!

Mas, entretanto, surgem outras situações, projetos, envolvimentos mais ativos com a sociedade, em função de um objetivo que se pretende atingir, certamente, legítimo e legal, para o qual a pessoa, que até então nos parecia nossa verdadeira amiga, sincera e íntegra, solicita o nosso apoio para ideias, projetos e orientações, mas que nós não comungamos, embora respeitemos.

Em boa e rigorosa consciência e honestidade intelectual, informamos que tal ideia, projeto e atividade não está na nossa formação, e que para não violarmos os nossos princípios, valores e sentimentos, não estaremos em condições de darmos o apoio pretendido, embora manifestemos a nossa vontade de manter o relacionamento cordial, sincero e com a máxima consideração.

É aqui que entra a confusão, a incompreensão, a impaciência e, mais tarde ou mais cedo, podem surgir consequências, mais ou menos graves, incluindo ofensas de diversa natureza, destruição de uma vida cívica, familiar, profissional e física, em alguns casos, extensivamente aos familiares, isto porque não se soube, ou não se quis, separar relações cordiais, ou mesmo de amizade, dos projetos e atividades distintas, que as pessoas têm o direito de realizar.

Quem luta por projetos sérios, para exercer uma atividade que visa o bem-comum, com objetivos nobres, certamente, tem o dever ético-moral de saber separar, muito bem, o que é privado do que é público e, sendo pessoa de boa formação pessoal, educada, respeitadora, afável e compreensiva, apenas deve apresentar as suas ideias, os seus projetos, com total transparência e humildade, indicar os métodos e os recursos que vai utilizar para alcançar os melhores resultados, os quais serão, inteiramente, favoráveis à melhoria das condições de vida daquelas pessoas que estão, ou vão ficar, sob a alçada do poder de quem se apresenta à eleição, ou nomeação de um determinado cargo político, social, profissional ou de qualquer outra natureza.

A sociedade precisa, hoje, talvez mais do que nunca, de mulheres e homens verdadeiramente visionários, no sentido de proporcionar ao coletivo, as condições de vida que caraterizam a inquestionável dignidade humana. Não pode mais haver lugar à demagogia, ao populismo, ao abuso do poder, qualquer que ele seja, à destruição de pessoas, famílias e projetos de vida, a partir da imposição de leis contrárias, ao que foi acordado com uma Instituição.

É sempre inaceitável que não se cumpram as promessas divulgadas, numa qualquer situação, como é inadmissível que  esta ou aquela pessoa, se comprometa a adquirir um determinado bem, a outra pessoa e, depois se esqueça de adquirir e pagar o produto que encomendou, causando, com este comportamento, graves prejuízos a quem ficou com a encomenda em casa, a estragar-se.

Hoje, mais do que nunca, a afirmação de qualquer dirigente, avalia-se pelas suas qualidades, princípios, sentimentos, emoções, virtudes autenticamente humanas, pelos valores altruístas, por uma genuína antropologia cultural, tudo sem dissimulações, nem hipocrisias. A dignidade, os sentimentos e os valores das pessoas são atributos da superior qualidade do ser humano.

Modernamente, prometer, (para depois não cumprir), projetos megalómanos ou bens materiais, em vez revelar e exercer a solidariedade, a amizade, a lealdade, a compreensão, o espírito de missão e a ajuda a quem mais precisa, revela-se próprio de muitas pessoas, ávidas de poder, para depois subjugarem e humilharem quem nelas acreditou, e/ou quem nelas não confiou, logo à partida. Hoje, mais do que nunca, são necessárias pessoas retas, justas, humildes, disponíveis para pensar e praticar o bem.

Por isso é que se exige uma grande preparação humanista, como também um elevado sentido ético-moral, porque é muito importante que tudo o que se faz na vida seja bem feito, com competência, profissionalismo e probidade, inclusive nas atividades ditas amadoras, como na política, na religião, a que se deve adicionar valores nobres, sentimentos autênticos, emoções espontâneas, verdadeiramente sentidas e exteriorizadas. Impõe-se sinceridade, separação de interesses, distinção de procedimentos, serenidade e objetividade nas relações, com rigor, transparência, tolerância e reciprocidade.

O poder, qualquer que ele seja, é sempre efémero porque, no limite, ele termina com um qualquer impedimento de quem o detém. Hoje, alguém exerce o poder, por exemplo, com arrogância, represálias, vinganças, quase sempre contra os mesmos: pessoas indefesas, que já deram quase tudo na vida, todavia, quando cessar as funções que lhe permitiram tal comportamento, a pessoa voltará ao seu estatuto anterior, à condição de uma criatura normal e, nestas circunstâncias, não quererá sofrer o que até então fez aos seus semelhantes.

É bom que se reflita na transitoriedade e alternância do poder, que a humildade nunca abandone quem o possui, que a simplicidade seja o lema do seu poder, porque assim poderá ver o seu trabalho, positiva e até carinhosamente recompensado. Afinal: somos todos constituídos com os mesmos elementos físicos; somos todos iguais em deveres, direitos e dignidade; somos todos filhos do mesmo Criador, seja este um Deus ou a própria Natureza; estamos todos de passagem, e no mesmo barco chamado “Planeta Terra” de onde todos, mais tarde ou mais cedo, partirão, de mãos vazias!!! Tenhamos a HUMILDADE de nos perdoarmos uns aos outros, porque será o único «capital» que deixaremos aos vindouros.