O Pão Que o Diabo Amassou (Celestino Ribeiro)

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A madrugada daquele dia acordou a companha do “Santa Maria Manuela” com ares de Páscoa, quer dizer, com ares de alegria e felicidade. Finalmente, após seis longos meses –  quatro dos quais passados a pescar na Gronelândia sem pisar terra, sem sol, sem um banho quentinho de água doce, a água era racionada, os alimentos sempre à base de peixe fresco com batatas, ou feijão, ou um dia ou outro grão, invariavelmente, sem frutas nem legumes frescos – o navio estava carregado de bacalhau salgado até ao teto do porão. Não havia mais espaço para salgar. Por isso a água entrava pelos embornais do salto e passeava-se pelo convés constantemente. Mas a brisa do dia anterior com o navio propositadamente posto à deriva atravessado à vaga, tinha como objetivo fazer abater um pouco as salgas mais recentes de vários dias consecutivos de arreio, e esse efeito foi conseguido. Para o capitão, mais cem quintais dava jeito para atenuar e descontar ao abatimento do porão na viajem de regresso a Portugal.

Assim, o capitão anunciou antes de mandar “arriar com Deus”: – Hoje só queremos cem quintais de bacalhau. É só mais uma trolada e levantamos ferro!

Os salgadores é que coçaram a cabeça, pois acaso a pesca fosse maior continuariam às turras contra o teto do porão, em condições nada confortáveis para o exercício de uma tarefa da maior responsabilidade, pois se a salga não fosse bem-feita podia perder-se todo o esforço da campanha. E, disso, todos tinham consciência. Todavia, mais de cem quintais exigiria um maior sacrifício para os salgadores, que teriam de andar deitados sobre o encerado para salgar, pois de joelhos não havia altura no porão. Entretanto, o bacalhau salgado ainda fresco, mesmo com um ligeiro balanço do navio lá ia abatendo de modo a permitir algum espaço físico, assim era esperado.

Neste dia não houve aquela aquela pressurosa e habitual movida para arriar. O mar apenas desalinhado por uma ligeira viração de norte, com pequena rebentação baixa aqui e ali, apresentava-se bom para a pesca. E os dóris foram lançados à água e fizeram-se à vela e a remos espalhando-se por um círculo de cerca de quatro milhas à volta do navio, conforme o seu palpite, porque aqui, agora, cada pescador é o capitão do seu dóri.

Estávamos a pescar no Banco Fillas. A temperatura era razoável naquele dia e naquela latitude na beirada sul deste Banco. Tempo claro com boa visibilidade. Eram meados de Setembro.

O navio chamou os dóris bastante mais cedo do que era costume. O capitão, com os seus binóculos avistou alguns dóris com sinais de boa pesca. E, com efeito, a jornada daquele dia foi abençoada com mais trezentos quintais de bacalhau, excedendo largamente o esperado. A salga iria ser um calvário para arrumar tanto peixe em tão precária disponibilidade do porão.

O sacrifício dos salgadores foi enorme.  Só a alegria do regresso nos deu energia para nos superarmos.

O capitão anunciou que os derivados do bacalhau daquela escala seriam para todos os pescadores, com exceção dos samos e das línguas processadas pelos moços do convés. Estes, eram habitual e contratualmente, para o capitão e o armador.

Logo, escaladores, troteiros, parte- cabeças e garfeiros se associavam para, no final da escala, safarem as suas caldeiradas. E foi assim: enquanto a escala decorria os moços atiravam as cabeças para dentro dos quêtes do salto de bombordo e de estibordo, já aliviados de bacalhau, ao mesmo tempo que outros processavam os samos extraídos das espinhas retiradas do bacalhau a ser escalado pelo escalador e as línguas das cabeças. Por isso encontramos muitas cabeças sem a língua! Mas também muitas completas porque os moços também não estavam muito a fim de terem mais trabalho e passavam muitas sem lhes tocar.

Quando a escala terminou, cerca da uma da madrugada, todos quantos trabalhavam no convés safaram as suas caldeiradas e recolheram ao rancho e ao beliche, enquanto o navio já navegava para sul. Os salgadores, exaustos, só muito mais tarde acabaram a tarefa da salga e saiam um a um pela escotilha do porão. Desta vez, os auxiliares que faziam chegar o peixe ao porão não disseram a tradicional ladainha: “Seja louvado Nosso Senhor Jesus Cristo, para hoje já está e para a manhã Deus dará”. Porque já não haveria mais pesca, a campanha estava concluída por este ano.

Os meus amigos algarvios Aldomiro, o tio Carrasqueira, o Manel Zé e o Xico, esperavam-me do porão já com uma grande quantidade de cabeças acauteladas em cestos de vime e um monte à revessa de uma escotilha para processar. Exclamou o Aldomiro:

– É! “Afilhade”, tens aqui a escala! – disse apontando-me as cabeças de bacalhau. 

Já eram três da madrugada quando meti as mãos à obra, logo após ter ido rapidamente ao rancho beber café e comer um bocado de casqueiro. A fome e a sede eram negras!

A razão porque os meus amigos algarvios estavam à espera de mim para safar as caldeiradas de caras de bacalhau, era porque eles, como outros pescadores, não tinham técnica para as processar. Nisso eu era exímio pela prática adquirida quando fui moço de convés. Os derivados eram tarefas dos moços durante as escalas. Aquilo era praia para mim, destreza, habilidade e rapidez. Em pouco tempo já tinha umas boas dúzias de caras que os meus amigos lavavam nas celhas da escala e as acondicionavam em cestos e depois despejavam parte delas num recato junto à escotilha da amarra, ou do pico das correntes. Outras, por fim, ficaram nos cestos de vime.

Cerca das 4h30 estava tudo concluído e arrumado. O navio já levava umas boas horas a navegar rumo ao sul. O tempo encoberto mantinha-se com uma ligeira brisa sem nada de especial. E fomos descansar para os beliches merecidamente.

Qual quê? Às sete horas acordam-me alvoroçados os algarvios – um deles tinha estado de vigia – que quase me arrastavam do beliche.

Que foi? – perguntei ensonado e de mau-humor.

– “Afilhade”, o mar está raivoso com o temporal e as caras estão a espalhar-se pelo convés levadas pelas enxurradas de água que entra pelo navio adentro! Temos de ir para cima se não perdemos tudo. Está um temporal do “caralhe”! – concluiu o Aldomiro.

Subimos ao convés. O temporal espalhara-se pelo mar agora alteroso e com forte rebentação. Ir à proa e andar a apanhar as caras pelo convés era uma tarefa nada agradável. O vento e o mar carregavam tanto quanto mais nos aproximávamos da zona de influência do cabo Farwell.

O navio carregado mais parecia um submarino varrido pelas vagas. O massame uivava com as rajadas tempestuosas do vento. Parte das caldeiradas perderam-se. Os homens cansados dormiam até que alguém os acordasse. Eu e os meus amigos lá conseguimos debaixo daquele inferno recuperar grande parte da nossa caldeirada, mas o resto o mar levou. Os cestos tinham ficado peados à escotilha. As caras que tinham ficado em monte para salgar durante o dia, só uma pequena quantidade recuperamos a apanhá-las pelo convés. Era uma confusão, o mais certo é que também apanhamos as dos outros que, todavia, ainda dormiam. Mas elas não tinham etiqueta!…

À tarde, o vento e o mar, parecia que não nos queria deixar sair da Gronelândia. À proa levávamos os estais içados para manter a linha de vento e o navio derivava com a força dos elementos conjugados. A sotavento surge da sarria do temporal um iceberg de grandes proporções. Havia que manobrar para evitar o choque que seria fatal. O temporal, entretanto, já tinha rasgado uma das velas que era preciso retirar.

Quando fazíamos a manobra, o navio meteu a proa na cava de uma grande vaga que nos levou arrasto convés afora, embrulhados na sua força brutal. Ainda fui a tempo – lembro-me – de safar a escota da vela que se tinha enrolado ás pernas. De imediato a vaga atirou o pedaço da vela borda fora com violência. A rapidez com que me desembaracei da escota valeu-me a vida, pois se não o fizesse teria ido arrasto com a vela. Assim, fui arrastado pelo convés batendo com as costas num tanque das línguas e contra a antepara da cozinha, agarrando-me ao que calhasse e sendo arrastado na mesma para me agarrar mais adiante a outra coisa, tal era a força daquela colossal vaga. O navio por momentos adornou quieto até que voltou a soeguer-se e endireitar-se. A carga era muita. Os meus companheiros de quarto também foram arrastados lutando para não irem fora da borda arrastados por aquela enxurrada de água furiosa e fervilhante.

Quando a vaga se insinuou à proa, alguém gritou da porta que dava acesso ao rancho:

– Ai! Que vai haver outra desgraça!

É que naquela viagem já tínhamos perdido um homem em circunstâncias semelhantes.

À noite o vento amainou e mudou de direção, mais favorável ao nosso rumo. O capitão decidiu seguir para St. John´s e, depois de abastecer rumar a Portugal.

Esta é mais uma saga de quanto é duro “o pão que o diabo amassou”. E, na pesca do bacalhau, era o pão de cada dia.

Celestino Ribeiro