O POSTAL

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Cerca do ano 1922 o Instituto Nun’Álvares de Camposancos encarregou o fotógrafo profissional Mariano Jimenez Hueto de fotografar alguns aspetos do estuário do rio Minho com vista à elaboração de uma série de postais significativos da paisagem, ambiente e vida neste lugar partilhado pelas duas margens.

A impressão destes postais foi entregue à empresa gráfica de Madrid Hause y Meneto que, ainda hoje, dá o nome à rua onde a mesma se situava. Entre essa série de postais destaca-se pelo interesse que tem para este apontamento, aquele que retrata dois navios ancorados no rio Minho e que no postal original se legenda como “Bacalloeiros portugueses fondeados fronte a Caminha”

Esta legenda no postal original tem induzido muitas pessoas – historiadores, estudiosos e curiosos – em erro. É que não se trata de navios bacalhoeiros e, muito menos, dos alegadamente, lugres da pesca do bacalhau de Caminha: o “Rio Minho” e o “Esposende III”, mas sim de navios de transporte marítimo.

Um navio à vela classifica-se segundo o velame que enverga e adequado à sua mastreação. No caso dos navios retratados no famoso postal trata-se de uma escuna e de um palhabote cujos nomes ignoramos. Supostamente, a escuna que nos aparece do lado esquerdo podia bem ser a “Laboriosa” do armador caminhense Braz J. Giestal e António Giestal Gonzalez, mas na altura da elaboração dos referidos postais já pertencia à praça de Viana do Castelo e a outro armador. Por isso não arriscamos uma certeza e, julgamos mesmo, ser uma hipótese a descartar até prova em contrário.

O palhabote da direita, tal como a escuna da esquerda e outros lugres e patachos construídos nos estaleiros de Pasaxe – Camposancos, dedicavam-se ao transporte de carga diversa e de madeiras das Caraíbas, Brasil e Filipinas e destinadas às serrações que havia no Tamuxe “Nandin Vicente y Cia”, na Pasaxe “Hnos Candeira” até 1915, “Hnos Dominguez y Cia.” e “Hnos Paris Morlá”. Estas serrações viriam a fundir-se em 1930 no “Consórcio “Serrarias del Minho, SA.” (inf. José António Uris Guizantes)

Analisando outros postais da série emitida pelo Instituto Nun’Alvares de Camposancos, as fotos foram feitas no verão quando os bacalhoeiros de Caminha estavam nos bancos de pesca da Terra Nova. Pelo menos em duas ou três delas vêm-se os alunos do Instituto a banhar-se e a divertirem-se na praia. Só esta prova bastaria para afastar a ideia de se tratar dos dois referidos bacalhoeiros. Mas além disso, basta-nos saber que os lugres bacalhoeiros “Rio Minho” e “Esposende III” eram navios de três mastros e não de dois como os navios representados no postal. 

Como prova de não ser o lugre de três mastros “Rio Minho” um dos navios ancorados, acrescento a jocosa expressão do neto do seu construtor, José Lopes, por alcunha “José Quintas” quando lhe foi perguntado pelo meu amigo Daniel Matos – então também convencido que um daqueles navios do postal era o “Rio Minho” – quantos mastros tinha este navio e ele prontamente lhe respondeu: – Três! 

Então o meu amigo retorquiu chamando-lhe a atenção do postal com os navios ancorados de dois mastros e que seriam na sua convicção os dois lugres bacalhoeiros. O “Zé Quintas” atalhou de imediato: “Então foderam-lhe um”! O “Rio Minho” era de três mastros.” – afirmou convictamente.

Efetivamente, o “Rio Minho” tal como o “Esposende III eram lugres de três mastros e pertenciam à “Parceria de Navegação e Pesca- A Caminhense”, do armador Francisco Odorico Dantas Carneiro.

O “Rio Minho”, construído por Manuel Ferreira Rodrigues e registado em Caminha em 23 de Fevereiro de 1922, fez as campanhas ao bacalhau de 1922 até 1928, altura em que a empresa caminhense o vendeu a um armador do Porto que lhe mudou o nome para “Silva Rios”, fazendo por esta empresa as campanhas de 1929 e 1930 quando naufragou por incêndio no Banco S. Pedro em 44º 27’ N e 50º 14’ W. A tripulação foi salva pelo lugre francês “Captain Huele”. Teve como capitães: Manuel Pereira Ramalheira (1922) ; João Magano (1923) e José Gonçalves Leite ( 1924 a 1928). É dado como capitão nos dois últimos anos, e já como “Silva Rios”, Alexandre Simões Ré. (?)

As caraterísticas principais do lugre “Rio Minho” eram as seguintes: Comprimento 35, 10 metros; Boca 8,82 metros; Pontal 4,20 metros.

O “Esposende III” foi construído em Esposende por José de Azevedo Linhares em 1921 e fez apenas três campanhas ao bacalhau: uma pelo primeiro armador Firmino Clementino Loureiro, de Esposende; e duas pela “Parceria de Navegação e Pesca- A Caminhense”: a primeira primeira campanha sob o comando do capitão António dos Santos e a segunda e terceira –  apenas iniciada – capitaneada por Manuel de Oliveira. Obviamente, não cumpriu o objetivo de fazer esta campanha, pois não passou de dois dias de navegação. Seria a terceira à pesca do bacalhau, mas não concretizada. Naufragou em 18/6/1924 a cerca de 35 milhas a oeste do Grove (Galiza) em 42º 25’ N e 09º 30’ W por água aberta, durante um temporal como causa primeira. Todavia, quando faziam sinais de socorro com fogacho para um vapor que passava mais a leste, sucedeu que um dos fogachos caiu próximo das latas que continham petróleo da iluminação e se incendiaram não sendo possível extinguir o fogo que começou a propagar-se pelo navio já ferido de morte. (sic Dário de Bordo do navio). Estas duas causas conjugadas abreviaram o afundamento do navio. Toda a tripulação foi salva pelo referido vapor. Era um navio ligeiramente maior do que o “Rio Minho” com os seus 37, 50m de comprimento, mas inferior relativamente às medidas da boca (8,69m) e do pontal (3,46 m).

Mais uma vez, relativamente ao famoso postal em referência fica, assim, demonstrado definitivamente, que os navios ancorados no rio Minho não são os lugres bacalhoeiros caminhenses “Rio Minho” e “Esposende III”.

Identificar estes dois navios como sendo os retratados no postal deveu-se ao erro da legenda no postal original: “Bacalloeiros portugueses fondeados fronte a Caminha”. Logo, a associação aos dois únicos e emblemáticos lugres bacalhoeiros da praça de Caminha.