O universo da razão é o universo da inteligibilidade

Por Diamantino Bártolo
0
450

Afirmou-se acima que António Sérgio era um admirador dos grandes racionalistas e que, com frequência, recorria a Platão, a Descartes, a Malebranche, a Espinosa e a Kant. Cumpre agora justificar estas afirmações e verificar um certo “símile” entre estes filósofos e o nosso autor. 

Notemos, antes de tudo, que a Filosofia de António Sérgio não é uma ontologia, uma metafísica, uma lógica, uma moral. É, em primeiro lugar, uma teoria do conhecimento, uma epistemologia. Não é uma moral, disse ele! Seja permitido abrir um breve parêntesis para aclarar uma afirmação. Sérgio, ao contrário da mentalidade hoje reinante, não via a sociedade num plano meramente crematístico, como algo para produzir riqueza e mais riqueza. 

Mais que o progresso, estimava o progredido. Venerou Kant, mas não lhe herdou a superstição ao progresso pelo progresso. Neste aspeto, cumpriu o preceito filosófico de Fichte: “O eu só se desenvolve em sociedade”. Sérgio foi um homem de bem, um cidadão de boa vontade, que teleguiou a perfeição do seu eu em vista do bem de todos. Teria orgulho, mas não foi narcisista. A crença de Sérgio, como a de Antero, estava no progresso da ordem moral, pelo progresso material. 

O bem material, a emancipação económica, não passavam, para Sérgio, de meros instrumentos do bem moral (a emancipação moral, a pedagogia do ser humano ativo e culto, o elo de uma sociedade transformada e redimida). A vida e o pensamento são para Sérgio uma única expressão de atividade. A Razão e o Bem, estreitamente unidos, representavam os grandes astros polarizadores do intelecto e da vontade, cuja luz, mesmo que o ardor polémico por vezes o cegasse, procurava julgar pessoas e factos, ideias e valores. O que o individualiza é o pensar nos outros, desejar-lhes um melhor destino. É um pensamento dirigido para o bem. A ética como sumo valor. 

A generosidade estava-lhe no coração e só depois no cérebro. Há idealismos submersos na “praxis”. De algum modo, era um homem que se esgotava na ação. A ação formava com o seu pensamento um único e sólido tecido. Agia porque pensava. Neste aspeto, poder-se-ia falar de um pensamento de caráter ético, em Sérgio. Mas não é esse o fim do presente trabalho. Dar-se-á prioridade ao seu pensamento gnosiológico, para depois se concluir pela educação cívica. António Sérgio nasceu platónico. 

É lutando contra Aristóteles, é sublimando o seu congénito platonismo, que Sérgio aperfeiçoa o seu próprio pensamento filosófico. «Quanto a mim, a marcha… é ao invés de Aristóteles: do que pensa, com ele, o senso comum.» (Ensaios, III:352).

É ao longo dos seus “Ensaios” que vai desabrochando a flor do seu incipiente e ascendente idealismo, o qual sempre encarnou desde os mais adolescentes anos aos da velhice sábia e madura. O “leitmotiv” do seu cogitar é um contínuo monólogo-diálogo com a razão. Não é a razão propriamente um conteúdo, uma faculdade. Surge como uma forma, como uma atividade de síntese “a priori”, faz converter as ideias em coerentes e consistentes. 

O universo da razão é o universo da inteligibilidade, e só é inteligível o que é coerente e consistente. A razão é um método ao qual se impõe permanente exame crítico: «… A característica da razão humana é o pleno à-vontade e o sorriso cândido diante das próprias coisas que ela faz, diante dos próprios rumos que ela traça, – pois sabe-se que a inteligência não se esgota em nenhuma das obras que produz: que ela a si mesmo se não adora, mas sim que se observa e se corrige, que desconfia e que ironiza, resignada a sentir o mesmo anseio e a interroga de novo o mar e os astros…» (Ensaios, II:20). 

Todo o esforço intelectual e todo o movimento da sua ação se desprenderam do racional e só do racional. A unidade e a diversidade são impostas pela razão. A ordenação, a harmonia espiritual, o valor da razão a tudo fere. Tudo passa pelo seu crivo metodológico. Tudo é ferido, aferido e conferido pela razão, entre o máximo do juízo e a harmonia autossuficiente, que recusam aceitar que o imediato da experiência seja a expressão da realidade autêntica.

Sérgio argumenta: «… Para mim, o essencial no conceito não é a imagem, é a relação; o conceito para mim não precede do acto do juízo, mas resulta, pelo contrário, da actividade judicatória do nosso juízo; é esta actividade judicatória (e não a imagem ou representação) o que está no ponto de partida do operar efectivo do saber científico”. (Ensaios, III:353). 

Sérgio é um racionalista, porque sustenta a irredutibilidade da razão à perceção sensível, arquitetar a vida mental. A razão tem os olhos postos em si mesma, não está de olhos fitos na imediaticidade dos dados sensíveis. É racionalista porque afirma a existência no nosso espírito de uma atividade ordenadora, superior à perceção sensível. Daí que o seu racionalismo seja muito afim do idealismo metafísico ou gnosiológico.

António Sérgio reputa-se a si mesmo como um idealista neo-kantiano. O ataque ao racionalismo foi desencadeado pelos filósofos cientificistas e humanistas. A sua luta cifrava-se num ponto comum: o racionalismo clássico é abstrato e incapaz de atender ao conceito. Negam-se a admitir que o espírito humano seja uma atividade espontânea, e que o homem se faz a si mesmo, num ato de liberdade absoluta. Durante toda a sua vida reflexiva, Sérgio lutou por caracterizar o seu pensamento filosófico como uma razão que se concretiza, que se inunda ao particular, que se acarinha pelo real. 

O seu racionalismo não era abstrato nem padecia de qualquer incapacidade para se abalançar ao concreto. «A inteligência, como eu a concebo, não minora a tal realidade; inteleccionar, ao que me tem parecido, é perceber o real, o concreto, o particular…» (Ensaios, VII:205). Sérgio mergulha o seu espírito constantemente na lida do real. O seu racionalismo nada tem a ver com o racionalismo dos velhos tempos.

Mas cuidado! Qual o sentido do real, da existência, em Sérgio? A experiência e o objeto são identificados com a intuição fenoménica. Os objetos não passam de puros fenómenos. «A experiência é um produto da razão, não algo que a defronte, independente dela. Opor a experiência à razão é como opor a obra de arte ao artista que a criou.» (Ensaios, VII:189). «Não há objecto situado fora, para além do intelecto; o objecto em si e a experiência em frente da inteligência, são meros fantasmas.» (Ensaios, VII:187).

 Sérgio não duvida da existência do que se designa por “um mundo exterior”, isto é, de algo independente da nossa “psique”, de uma realidade física, de uma “fisis”. Não é, todavia, um empirista. Antes, rejeita qualquer tipo de empirismo, como tendência filosófica que reduz a totalidade do conhecimento à experiência. A inteligência tem um papel constitutivo, criador, não só a nível da experiência, mas também a nível científico. 

O mundo não é concebido como uma coleção de coisas. É antes uma atividade cuja função é suscitar na: «“psique” o nascimento “dos algos a que chamei sentires (dados-dos-sentidos, sensações, intuições) os quais são sinais da Actividade-do-Mundo, mas não imprimissões do dito mundo em nós, que tenham semelhança com a Actividade-do-Mundo.» (Notas de Esclarecimento, Portucale, 1950:204). 

Segundo Sérgio: «Tudo desponta no viver da psique, pelo espontâneo actual da nossa energia psíquica, e não por estampagem do “chamado mundo externo”. Nada na mente é reflexo de algo. A experiência não é o sinal sensível, não é a ideia, não é o sentir, nem tão pouco a forma: é a indestramável ligação do sentir e da ideia sempre estruturada por interpretações do intelecto.» (in: SÉRGIO, 1950:199). 

A missão da experiência é a justificação das hipóteses colocadas pelo pensamento, que na sua marcha progressiva e regressiva, busca a verdade: acordo recíproco entre a tese (o facto que nos interessa) e a hipótese colocada pelo pensamento. Sérgio deve ser considerado um experimentacionista e não um empirista.

Bibliografia

CHAVES, C. B, V.V., António Sérgio, Obra completa – Ensaios – Tomo I, Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa, 1976;

SÉRGIO, António, (1974). Obras Completas: Ensaios, 1ª edição, Tomo VII, Lisboa: Sá da Costa.

SÉRGIO, António, (1976). Obras Completas: Ensaios, 2ª edição, Tomo I, Lisboa: Sá da Costa.

SÉRGIO, António, (1984). Educação Cívica. Lisboa: ICLP/ME

SÉRGIO, António, (1950), Notas de Esclarecimento, Portucale, Porto, nºs 28-30, Julho-Dezembro

“NÃO, ao ímpeto das armas; SIM, ao diálogo criativo/construtivo. Caminho para a PAZ”

https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=924397914665568&id=462386200866744

Venade/Caminha – Portugal, 2024

Com o protesto da minha permanente GRATIDÃO

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

Presidente Honorário do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal