OCASO DE UM BREVE AMANHECER CAMINHA E A PESCA DO BACALHAU / O FIM DOS SEUS NAVIOS

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Inícios dos anos vinte do séc. XX.

Ancorados nas águas argentinas do estuário do rio Minho, os dois lugres bacalhoeiros sem motor esperam os tripulantes que vão dar alma àqueles corpos recortados na sombra daquela planura calma e remansosa. São eles, o “Rio Minho” e o “Esposende III, ambos lugres sem motor de três mastros mais a vergôntea do gurupés, da praça de Caminha.

O lugre “Rio Minho” foi o primeiro a demandar as tranquilas águas do estuário e passar a barra rumo ao mar, as velas cheias da viração de norte. Desceu, virou a restinga arenosa da ponta grossa, passou a Ínsua e fez-se ao largo a todo o pano. E ei-lo a afastar-se rumo ao horizonte com a tarde a desmaiar, rumo oesnoroeste escotas caçadas em bolina larga qual gaivota branca a afastar-se. Depois desapareceu para lá da linha do horizonte visual.

Alcançou as coordenadas do Grande Banco da Terra Nova vinte e três dias depois. Pelo longo caminho da travessia do Atlântico enfrentou a adversidade dos ventos contrários e do mar encapelado a tolher-lhe a marcha como as calmarias a pressagiar um corcel de vagas alterosas que o obrigou a fazer capa ao temporal e a descontar a deriva quando a tempestade passou. As peripécias habituais de uma rota secular seguida desde o séc. XV pelos nossos marinheiros e pescadores de antanho em busca do fiel amigo.

Mais próximo do Grande Banco, atravessou os nevoeiros densos  como o chumbo e, roçando os mastros a  escorrer água, puderam ver-se os sinais dessa proximidade. Com o nevoeiro, as cagarras e os pombaletes à mistura com paínhos que, desnorteados pelo nevoeiro e o cansaço poisavam no convés, todos fazendo a sua aparição como se essas aves marinhas quisessem saudar a sua chegada. Os homens já sentiam a descida da temperatura nos seus corpos cobertos por calças e camisolas grossas e, por cima, a roupa de oleado, debaixo daquele céu opaco tocado pela brisa cavaleira.

Era tempo de reduzir ao mínimo indispensável o pano e orçar para fazer a primeira sondagem.

– Orça! – ordenou o capitão.

O homem do leme girou a roda e aproximou a proa na direção da linha de vento. Os panos começaram a espanejar e o navio ficou praticamente parado apenas com uma ligeira deriva para sotavento com a falta do vento lateral.

A sonda, um pedaço de chumbo cónico, com uma pequena cavidade na base onde se aplicava um pouco de sebo para identificar a natureza do fundo do mar permitindo analisar as partículas que nele se fixavam, foi lançada. 

A primeira sonda era demasiado profunda, pois engoliu toda a linha de mão e não tinha encontrado o fundo. Havia, pois, que navegar mais adiante umas horas por entre o nevoeiro cerrado.

Ao fim da tarde, manobra para nova sonda: 40 braças, fundo arenoso. Mas o palpite era que o Banco São Pedro quase na vertente do planalto submarino do Grande Banco da Terra Nova estava perto. Com efeito, mais cinco milhas a oeste e nova sonda: vinte e três braças, fundo de conchas.

– Chegamos! – gritou o contramestre.

– Arreia as velas! – decidiu o capitão.

– Larga a âncora e 40 braças de cabo da amarra! – rematou.

A noite tinha caído, o vento refrescou um pouco mais e o navio baloiçava metendo água pelos embornais. Os homens dormiam nos seus beliches à proa indiferentes ao balanço incessante de bombordo a estibordo.

O vigia da meia noite à uma da madrugada viu o nevoeiro a dissipar-se como que varrido pelo vento fresco.

O vigia das três às quatro já viu o vento amainar e o clarão do dia a levantar-se no horizonte leste.

-“ Vento de névoa amor de puta”! – Murmurou entre dentes citando o antigo adágio marítimo.

Com efeito, aquele vento dissipou-se com a névoa em pouco tempo e ficou calma estanhada. Então, foi acordar o capitão que lhe perguntou de imediato pelo estado do tempo.

“- Céu nublado, mas com razoável horizonte e mar calmo”. – informou.

– “ Vai dar os “louvados” à proa! – ordenou

O vigia dirige-se à proa, desce as pequenas escadas do “rancho” e canta os “ louvados”:

“ Louvado e adorado

Santo Nome de Jesus;

Por causa de nós irmãos

Deus ‘stá pregado na cruz.

Deus ‘sta pregado na cruz

E morreu p’ra nos salvar;

Ó de baixo vai p’ra cima

Que de cima está a chamar.”

E, em seguida, com voz rouca e forte, grita: – “ São quatro horas! Olha que vai arrear!”

Os homens dormentes, ainda, abandonam os seus beliches pressurosos, comem uma sopa de feijão assado e dirigem-se ao convés para junto das pilhas dos dóris.

Com todos os homens já prontos, casaco e saia de oleado vestidos e o sueste na cabeça, nos pés as botas de cabedal ou de borracha, o capitão dá as suas instruções sobre o lugar e o estado barométrico do tempo e manda arrear os dóris de um só homem:

– “Arreia com Deus”! A bombordo e a estibordo.

Uma vez na água pardacenta, os homens espalham-se à volta do navio em busca da sua sorte. Vão ao seu palpite.

Dez a doze horas depois regressam ao navio-mãe, uns mais afortunados que outros. É assim, e assim será quase todos os longos dias da campanha de pesca.

Com o novo nome de “Silva Rios”, e pertencente a outra empresa para onde foi vendido pela já decadente financeiramente Parceria de Pesca Caminhense a quem pertencia, o “Rio Minho” afunda-se em 20 de Julho de 1930 por incêndio no Grande Banco da Terra Nova. Nunca saberemos se foi acidente ou se foi deliberado.

O “Esposende III saiu a barra de Caminha e rumou a noroeste com norte fresco. O navio rangia pelos costados na cava das ondas impelido pela nortada constante.

Pela tarde o vento norte cessou de repente e começa a rondar para sudoeste. O navio cambou as velas ainda com terra à vista, que logo se escondeu na noite. O vento foi aumentando de intensidade até se tornar numa tempestade, tal como o velho rifão anunciava: “ Sul que pela noite entra, à noite é uma tormenta”.

Uma queda na cava funda de uma vaga alterosa onde a proa se escondeu e logo outra que embateu com toda a violência sobre o navio ainda não reposto da primeira que o tinha adornado, pareceu desconjuntar toda a estrutura do navio. Este, começa a meter água na obra viva.

Grita-se, que o navio abriu água. Os homens em desespero revezam-se toda a noite a escoá-la com as bombas manuais e aguenta-se até cerca das 15h do dia seguinte, mas com a ameaça de afundar baldado todo o esforço de uma noite tormentosa e fatigante. A água, apesar do esforço, sobe cada vez mais no porão, no rancho e na câmara dos oficiais. A atmosfera está cerrada e a visibilidade escassa pela sarria do temporal e da ondulação desencontrada. Não há nada a fazer, o “Esposende III” está condenado. O balanço transversal adorna ainda mais o navio a cada movimento empurrado pela enxurrada da água no porão.

Alguém grita que um outro navio (de carga) navega a leste em direção ao norte entre a fumaça do tempo.

O capitão ordena que se lancem foguetes como sinal de pedido de socorro. Entretanto, um foguete caiu sobre umas latas de petróleo acondicionadas no convés. Era o petróleo da iluminação para toda a campanha de pesca.

Rapidamente se ateou a chama a todas as latas de modo impressionante sem qualquer hipótese de o deter e extinguir. O navio, já ferido de morte, começa a arder.

Todavia, o outro navio viu o “Esposende III” em chamas e desfaz o rumo que levava e dirige-se em seu socorro. Os homens arreiam os dóris e passam para o navio que veio em seu socorro. Toda a tripulação é salva. Era o dia 18 de Junho de 1924.

A perda deste navio e as dificuldades financeiras já sentidas pela empresa Caminhense, determinou o colapso da mesma.

E foi o ocaso de um sonho de progresso para o concelho de Caminha que, entretanto, continuou a dar homens à pesca do bacalhau, mas noutras empresas de pesca de outras localidades marítimas, Viana do Castelo, Porto, Aveiro, Figueira da Foz, Lisboa, as grandes praças de navios da pesca do bacalhau.

Celestino Ribeiro