Os altares das almas do purgatório no concelho de Caminha – Santa Marinha de Gontinhães

Por: Maria Grabriela Oliveira
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A figuração do Purgatório

Purgatório em labaredas
Oh! Lume que satisfaz
Senhor Deus das almas lêdas
Descansem todas em paz!

Padre Moreira das Neves

 No século XXI dominado por inquietações e perturbações de todo o género, no primeiro decénio do segundo milénio marcado pelos avanços da ciência em vários campos, haverá países, regiões, pessoas que se ocupem, que dêem atenção às almas do Purgatório?

Neste cantinho noroeste da Península Ibérica que um notável estudioso francês, Michel Vovelle, considerou um lugar extraordinário de vivência da devoção e do culto às almas do Purgatório, a resposta surge, imediatamente, afirmativa. Sim, o Alto Minho – e, com ele a região da Galiza – continuam uma tradição religiosa antiquíssima mas que conheceu especial relevo e divulgação entre os séculos XVII e XVIII.

Tudo porque, após as dúvidas e a contestação de Martinho Lutero que deram origem à Reforma Protestante, a Igreja Católica, após o Concílio de Trento (1545-1563), estabeleceu como dogma a existência do Purgatório e o mérito dos sufrágios dos crentes vivos em favor das almas dos justos em pena temporária. De consequência, os bispos, através de muitas e diversas acções de evangelização, procuraram espalhar e infundir no ânimo dos fiéis a doutrina aprovada e reafirmada na grande assembleia conciliar.

No nosso país, a partir de Seiscentos, as chamadas missões do interior, encabeçadas por franciscanos, dominicanos, jesuítas, oratorianos, encarregaram-se de catequizar sobre a matéria o povo de cidades, vilas e aldeias. Acontece que de norte a sul do território nacional, onde sempre foi respeitosa e estreita a relação com os que partem deste mundo – alminha de meu pai valei-me – a evangelização do Purgatório foi especialmente bem acolhida e o culto e a devoção às almas atingiram grande esplendor.

Ora, uma forma de aproximar os fiéis ao discurso de sermões e prédicas era a representação visual,a figuração concreta de quanto descrito. Nasceram, portanto, sobre diversos suportes, quadros alusivos às almas do Purgatório. Entre eles, nas igrejas paroquiais, encomendadospelos párocos ou por iniciativa de confrarias, os altares com retábulos dedicados ao tema. A imagem, então como agora, tem a força de mil palavras…

Assim, quando, desde há anos, me interessei e entreguei ao estudo do Purgatório – quem sabe, talvez por influência do ambiente da aldeia de Riba de Âncora – reparei que quase todas as igrejas paroquiais do concelho de Caminha tinham o seu altar das almas, cuidado e, muitas vezes, restaurado. Fotografei-os todos. Continham em si matéria de interesse. Mereciam a atenção que reconhecidos autores, especialmente franceses, dedicaram a iguais altares de povoações da sua terra. Mereciam ser chamados à ribalta.

Humildemente, com simplicidade, longe de qualquer objectivo de apreciação estética, tentarei «ver» como os executantes da época, segundo o meio cultural em que estavam inseridos, interpretaram e figuraram a pastoral da Igreja Católica sobre o «terceiro lugar do Além» dito Purgatório.

Começo pela paróquia de Santa Marinha de Gontinhães, antigo nome de Vila Praia de Âncora, terra de mar e pescadores. Com o altar das almas da sua igreja matriz inicio a publicação de um estudo que há-de abranger doze localidades do concelho de Caminha.  

O altar das almas de Gontinhães coloca-se na nave lateral esquerda do edifício da igreja matriz, no chamado lado do Evangelho quando o sacerdote celebrava de costas para o povo.

Até ao momento, a documentação consultada não nos permite datar, exactamente o ano da construção desta obra votiva. Contudo, as fontes disponíveis apontam para finais de Seiscentos, inícios de Setecentos.

Comecemos pelo texto das Memórias Paroquiais de 1758 que, ao indicar os altares da dita igreja, cita «o das almas com irmandade».    

Esta referência quer dizer que, à data da elaboração das respostas ao inquérito ordenado pelo Marquês de Pombal, as obras aí indicadas já existiam anteriormente. Neste caso, o altar das almas vinha de tempos atrás. Tal dedução é confirmada pelos Estatutos da Confraria das Almas da mesma paróquia datada de 1738, os quais, logo no Capítulo I estabelecem onde será erigida, dizendo: Parece aos Irmãos da Confraria desta Irmandade das Almas q. fosse erigida em o Altar Colateral  desta Igreja de S. Marinha de Gontinhães q. fica para a parte do Evangelho, aq. chamam já de antes o Altar das Almas.   

Por sua vez, Lourenço Alves, no volume Caminha e Seu Concelho, partindo destes dados e, talvez, de outros que recolheu, denomina o retábulo «renascentista», isto é, pertencente a fins do século XVI.

Ousamos concluir que o retábulo que apreciamos nos nossos dias remonta a inícios de Setecentos. Antes de 1738 havia já na igreja paroquial de Gontinhães um altar dedicado às almas do Purgatório. Nesse ano, estabelecida aí a Confraria das ditas, o altar sofreu, provavelmente, obras de renovação que correspondem ao estilo do barroco tardio português e nortenho da época e que predomina em quase toda a decoração interior do templo.

Mas, de acordo com a linha de rumo que estabeleci, o que se procura salientar nestas curtas linhas, diz respeito aos pormenores, às acentuações que o autor da obra colocou no discurso oficial da Igreja sobre o assunto Purgatório o qual, evidentemente, era respeitado em absoluto.

Na igreja matriz de Gontinhães a parte central do altar está ocupada por um retábulo.

 Muito provavelmente, o artista executante pertenceria ao ambiente local, melhor dizendo, faria parte de um núcleo de pessoas especializadas naquele tipo de criações, oriundas, talvez, da cidade de Braga, arquidiocese que englobava o concelho de Caminha. Braga, cuidava e vigiava, pois, no sentido da obediência da figuração às orientações da hierarquia católica.

O retábulo consta de um painel em relevo figurativo sobre madeira.

 Desde logo, a ideia central de Purgatório corresponde a um «lugar» inferior para onde se «desce», para onde baixam as almas dos justos que necessitam de expiação até poderem «subir» ao paraíso celeste.

As almas apresentam-se corporizadas, é-lhes atribuído um corpo como aquele dos vivos. Despojadas de vestuário, nus, mas sem qualquer identificação de seu sexo, homens e mulheres distinguem-se apenas pela barba e pelo corte e comprimento de cabelos. Naturalmente, encenar um grupo de corpos despidos com as suas características sexuais mais ou menos definidas resultaria obsceno numa igreja; por outro lado, sublinha-se que se trata de espíritos que estão, pois, para além dos desejos terrestres. Amontoados, dispostos em   pirâmide formam um conjunto que reforça o sentido da desejada elevação.

 Ao contrário de muitas outras representações de igrejas do concelho, não vemos entre as figuras um rei, um papa ou um bispo, simbolizando a igualdade da pena diante das faltas dos homens, fossem quem fossem na vida terrena. Aqui, o autor colocou dois frades. Por simpatia ou por especial aversão para com os membros das ordens regulares?

O fogo purificador constitui um elemento essencial deste relevo figurado. As labaredas envolvem, entrelaçam as almas com forma corporal. Mas, o autor da obra sabe que não trata o fogo, um dos componentes do Universo, reproduz uma imagem de purga, de expiação convencionalmente adoptada como resultante de um fogo sobrenatural. Por isso, as chamas não consomem; corpos e cabelos apresentam-se intactos. Todavia, os braços levantados em sinal de ajuda, as mãos postas e os rostos voltados para o alto mostram bem a ansiedade, o desejo de sair daquele «lugar» intermédio, a esperança na salvação o mais rápido que lhes seja permitido. Note-se que espelham um sentimento de libertação, mas, não exprimem dor física ou os rostos se contraem em um qualquer esgar de dor. E, no entanto, o Purgatório constitui sofrimento e, por isso, as almas pedem auxílio já que, por si mesmas nada mais podem fazer.

Convém lembrar que estas imagens esculpidas e pintadas, desempenhavam uma função pedagógico-didáctica.

Honravam o culto pelas almas do Purgatório, mas, também, estimulavam os sufrágios dos crentes vivos, da igreja militante, em prol dos fiéis defuntos, a igreja sofredora; neste caso, toda a feitura se orienta para essa ajuda que pode encurtar a permanência em um estado de sofrimento.

E assim, sobre um fundo azul celeste, a sugerir já a morada divina, ao lado direito do retábulo, bem destacado em relevo, um intercessor poderoso, um franciscano, Santo António. Santo António com a corda de nós que usava à cintura como instrumento taumatúrgico ao qual se podem agarrar os que estão já num ponto mais alto, quer dizer num estádio superior de remissão de suas culpas. Ele ajudará aqueles que, em vida, foram seus devotos, os que o elegeram como seu patrono. Quantos escolhem para mortalha o hábito do franciscano como desejo de assegurar uma protecção particular no Além…

 A opção como intercessor do frade lisboeta tanto pode corresponder a uma missionação da ordem franciscana como a uma arreigada devoção por este santo que, aliás, tem nesta igreja um destacado altar.

Do lado oposto a Santo António, S. Miguel. O arcanjo sempre presente nas figurações do Purgatório de norte a sul de Portugal. Quem, com suas balanças, lembra o juízo particular que se seguirá á morte e o peso do bem e do mal cometidos.

Entre o fogo purificador, a tocar as almas, um anjo alado, não por acaso com uma veste verde. Um espírito celeste que funciona como «meio de transporte» para o céu.

Acima e a posição acima comporta significado de superior – a Virgem e o Menino dentro de um semicírculo de cabecinhas de anjos. A Mãe de Deus, do seio da qual pende um rosário a simbolizar mais um meio de auxílio ao encurtamento das penas do Purgatório. A Mãe do Salvador, intercessora por excelência junto da Santíssima Trindade que domina e culmina o quadro do altar das almas de Gontinhães.

Em época posterior, talvez no século XIX, certamente após obras no edifício da igreja, colocou-se um enquadramento de granito, um arco assente dobre dois pilares encimado pela caveira sobre as tíbias cruzadas, a emoldurar todo o altar das almas. O significado deste pretenso adorno merece duas palavras.

 Mandante e autor da obra podem, simplesmente, ter querido acentuar quão fugaz é a vida e quão inevitável é a morte. Todavia, o arco assente sobre dois pilares representava na civilização egípcia «a porta solar para a imortalidade» e esta simbologia passou para a grandes construções como a Porta da rua Augusta em Lisboa ou o Arco do Triunfo em Paris. Nada nos prova que esta ideia esteve presente no levantamento da citada moldura granítica mas, também, nada nos impede de pensar que a mesma possa subjazer à dita construção. E, na verdade, o arco acrescenta solenidade ao altar.

 A lição visual deste painel figurativo da igreja matriz de Gontinhães, Vila Praia de Âncora, fiel à linha tridentina, como não podia deixar de ser, reforça a mensagem da incontestável existência do Purgatório, «lugar» de expiação, transmitindo uma emoção piedosa baseada na esperança, na certeza da beatitude, da visão de Deus, alcançada pela poderosa intercessão da Virgem e dos santos. O olhar dos fiéis encontra uma representação, tanto quanto possível, asseguradora, longe de incutir terror como acontece em muitos escritos da época que abordam o tema do Purgatório.

Em todo o retábulo, com em outros do concelho de Caminha, sente-se, adivinha-se a proximidade, a quase familiaridade que o povo da zona mantém com as almas do Purgatório, em especial a dos seus entes queridos. Daqui, a tal extraordinária vivência a que aludiu  Vovelle e a continuidade de uma devoção e de um culto bem presentes na atenção e carinho  que as gentes da terra de Gontinhães, Vila Praia de Âncora, dispensam ao altar das almas da sua igreja matriz.

Para Saber Mais:

ARIÉS Philipe, História da Morte no Ocidente desde a Idade Média, ed. Teorema, Lisboa,1989

LE GOFF Jacques, O nascimento do Purgatório, ed. Gallimard, Paris, 1981

VOVELLE Michel, As Almas do Purgatório ou o trabalho do luto, ed. UNESP, 2010