OS VERDADEIROS HERÓIS DA FROTA BRANCA

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A pesca do bacalhau à linha em dóris de um só homem, inédita na história das pescarias no noroeste do Atlântico, assentava em bases de trabalho escravo. Esta condição arrancava aos homens que o praticaram sentimentos moralmente negativos que endureciam o seu caráter. A dureza das condições climatéricas, conjugada com a fragilidade de um pequeno dóri sem qualquer condição de segurança e a solidão absoluta, ainda mais sentida quando o denso nevoeiro se abatia em redor, não permitindo mais que um palmo à frente do nariz de campo visual, onde os olhos pudessem distrair-se com a aparição dos belos e perigosos icebergs em passagem e das baleias, das aves marinhas atentas a qualquer sinal de um simples isco a boiar, ou a banharem-se na eminência de uma tempestade, ou ainda, da visão de um pedaço de terra negra no enevoado da distância e o navio-mãe ao longe ancorado com os seus altos mastros quase a emergir da superfície do mar; a parca e quase sempre invariável componente alimentar a bordo à base de peixe fresco cozido com batatas, feijão ou grão para variar, cozidos com água salgada para poupar a água doce racionada, que constituía a única refeição quente do dia e era tomada ao fim de intensas jornadas de trabalho de catorze a dezasseis horas ou mais a bordo dos dóris, desde os “louvados” às rituais quatro horas da madrugada seguidas, variavelmente, de mais umas quantas horas conforme a duração do processamento do peixe a bordo do navio – escala, lavagem e salga – determinada pelas quantidades de bacalhau capturadas pelos dóris.  Daí o descanso ser quase sempre muito escasso.

Muito poucos eram os capitães que manifestavam alguma clemência de modo a compensar os pescadores com algum descanso capaz de permitir aos homens condições físicas razoáveis para enfrentar novas jornadas intensas de pesca. Havia homens que caiam exaustos de sono e de cansaço, moviam-se como autómatos por breves momentos para retomar as exigentes tarefas. Outros ficavam doentes a bordo à espera de uma consulta no navio-hospital “Gil Eanes”, no seu périplo por toda a Frota Branca estacionada a pescar nos mares boreais da Gronelândia gelada, a norte do Círculo Polar Ártico. Nesses dias de intenso trabalho nos dóris e a bordo do navio com tempo de descanso reduzido ao limite da resistência física, os homens dos dóris nem as botas descalçavam. Apenas se atiravam para cima das enxergas de palha do beliche e imediatamente adormeciam, por um breve momento não sentindo as dores nas costas e a tortura das bexigosasnos pulsos e dos golpes e picadelas nas mãos onde o salitre e o sal – no caso dos salgadores – penetrava e que era ao mesmo tempo, tão irritante! 

A desforra de um digno e merecido descanso só quando as brisas se espalhavam pelo mar e não permitia o arreio dos dóris, ou quando o temporal era ainda mais forte e obrigava o navio a ficar de capa, às vezes até com risco de ocorrência de alguma tragédia. Não era estranho uma onda alterosa arrancar dóris do convés, partes da estrutura ficar danificada com a sua violência, ou algum homem ser arrastado borda fora. Mas para quem não estava de serviço – leme, vigia ou manobra urgente das velas, era o ideal para “recarregar as baterias” e aliviaras maleitas com umas fricções de pomada nas costas e tintura de iodo nos pulsos e nas mãos golpeadas e picadas dos anzóis.

Banho não havia, a água não permitia esse luxo durante uma campanha de quatro meses na Gronelândia. Só quando do regresso à Terra Nova para completar a campanha e uma passagem pela saudosa cidade de St. John’s durante os ciclones, onde o Portuguese Fisherman’s Centre (Casa dos Pescadores Portugueses) oferecia esse luxo de um banho quente e cheiroso por um sabonete previamente comprado no Woolworth’s onde também alguns aproveitavam para tirar uma foto à la minutae mandar à família no meio das folhas de uma longa carta cheia de saudades. 

Cada pescador ganhava conforme aquilo que pescava. Por isso a competitividade era grande. Para suscitar ainda maior competitividade, o capitão afixava a cada quinzena uma lista com os valores da pesca de cada pescador. Isto, não era inócuo: sentimentos de inveja surgiam em muitos e esta lista não está isenta de motivo de algumas tragédias. Alguns, quando as pescas eram propícias, carregavam o dóri exageradamente até ao ponto de afundar. Certo que o sonho de cada pescador era ser o melhor, era pescar muito, mas isto enlouquecia ao ponto de pôr em risco a própria vida. Era de perder a racionalidade quando os anzóis vinham cheios de peixe.

 “Pescar sempre até à morte”, dizia um fado bacalhoeiro escrito pelo capelão do “Gil Eanes” P. Sá Rosa. E, para alguns, foi mesmo. Outros, os mais desafortunados, faziam-no quando um dia, inesperadamente, os seus anzóis vinham cheios de bacalhau e procuravam desforrar-se das suas pescarias sáfaras, subindo uns pontos na dita listagem e, porque, precisavam ganhar o pão para as famílias havia que aproveitar ao máximo. Mas também para serem mais considerados pelo capitão que o acusava de malandro e outros impropérios ofensivos da honra e dignidade do pescador, ou, ainda, para escapar de algum castigo como fosse dar indicações ao cozinheiro para lhe dar de comer apenas águas de arroz, repetindo para o cozinheiro: – Dê a este homem águas de arroz …, mas só as águas, não com o arroz!  

Uma desumanidade! Como toda aquela vida, sem condições humanas, trabalho, riscos de vida, sem horários nem dia de descanso semanal, fraco regime alimentar e, ainda, muitas vezes aguentar as frustrações do capitão, senhor e rei, e dos seus maus humores resultantes de fracas pescas ou do isolamento, apesar de terem tudo o que os pescadores não tinham. 

A história da pesca do bacalhau com dóris de um só homem para ser verdadeira, tem de ser ouvida ou escrita pelos pescadores. Num grupo humano deve haver um coordenador. Mas regra geral, os capitães da Frota Branca não eram coordenadores, mas capatazes déspotas. Chamo a atenção para os escritos de alguns, com tanto romantismo que até parece quererem branquear o que na realidade foram, o que fizeram sofrer. Se os navios iam e voltavam, eram os pescadores que agarrados à roda do leme os conduziam segundo o rumo que o capitão dava, sim, mas era o seu saber manter o navio fiel a esse rumo; se as velas do lugre arrastavam o navio sobre o mar varrido pelos ventos, eram os pescadores que as manobravam com a sua arte e o seu saber conjugado com o homem do leme. Eram os pescadores que arriscavam e alguns nessas travessias atlânticas foram arrastados pela fúria dos elementos. 

A história, é pena, mas é dos vencedores. E os vencedores da pesca do bacalhau, eram os capitães, claro. Dizia-se, que este ou aquele capitão carregou o navio, que ele salvou o navio durante uma tempestade. Mas qual quê? Houve capitães que em certas situações não sabiam o que fazer, ou até, quem desse o navio perdido e salve-se quem puder. Mas houve quem, de entre a tripulação que não tinha comando o tomasse perante a desistência do capitão rendido ao facto consumado. Mas os pescadores, esses lutavam, esforçavam-se por manter a proa às investidas das ondas gigantescas. O leme e as velas estavam nas suas mãos como a vida de todos. Uma falha destes homens podia ser fatal.  Claro, também não podemos exagerar nem generalizar. Também houve verdadeiros comandantes – muito raros – que incutiram aos seus homens coragem e ânimo quando o medo os empurravam para a fatalidade e também eles venceram o seu medo.

Porém, a verdadeira história da Frota Branca, é a dos verdadeiros heróis, e, esses foram os homens dos dóris portugueses. 

Celestino Ribeiro