PORTUGAL NA LINHA DA FRENTE DOS CABOS SUBMARINOS QUE DETECTAM SISMOS

O projecto prevê que a infra-estrutura tenha a capacidade de detectar sismos e tsunamis.
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Mais de 500 anos depois dos Descobrimentos, Portugal volta a ter “um papel pioneiro e de liderança no Atlântico” – q​uem o diz é Yasser Omar, do Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa e investigador do Instituto de Telecomunicações (IT), que faz parte do projecto de investigação para o lançamento de novos cabos de comunicações submarinos entre Portugal continental, Açores e Madeira. Mas há uma novidade: além das telecomunicações, os novos cabos permitirão a investigação científica.

É sabido que o anel Continente-Açores-Madeira (CAM) em cabo submarino terá de ser substituído em breve, uma vez que a sua vida útil terminará entre 2024 e 2025. Mas foi ainda antes de tomarem conhecimento deste facto que investigadores do IT, do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) e do Instituto Dom Luiz (IDL) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa começaram a desenvolver, há quase dois anos, um projecto conjunto de investigação (chamado Listening to the Earth under the Atlantic) sobre os cabos de comunicações submarinos com os olhos postos no ambiente, nas alterações climáticas, na oceanografia, geofísica e sismologia. Meses depois, os investigadores foram contactados pela Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom) e desafiados a averiguar e estudar os requisitos técnicos necessários para que este equipamento pudesse ter novas funcionalidades, nomeadamente ao nível da detecção de actividade sísmica.

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“São ideias que podem ser muito revolucionárias do ponto de vista científico, mas com grandes implicações também ao nível tecnológico e societal”, especialmente em termos de monitorização e previsão de risco sísmico e detsunamis, começa por explicar Yasser Omar.

Um ensejo que apenas acontece a cada 25 ou 30 anos, quando as infra-estruturas de comunicações submarinas são substituídas. “É uma oportunidade única no tempo e no espaço”: “No tempo porque é agora que se vai instalar o novo anel CAM, que deverá estar a funcionar por volta de 2024; e no espaço porque praticamente toda esta infra-estrutura fica na zona económica exclusiva portuguesa” — não interferindo com países terceiros, destaca Yasser Omar.

O anel é constituído por três cabos de fibra óptica, com um comprimento total de aproximadamente 3500 quilómetros (1000 quilómetros entre o continente e a Madeira, outros 1000 entre a Madeira e os Açores e 1500 entre os Açores e o continente) e um pouco menos de dois centímetros de diâmetro cada um. Este equipamento ficará assente no fundo do mar, por vezes a mais de 5000 metros de profundidade e, estimam os especialistas, implicará um investimento de 119 milhões de euros.

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A substituição do equipamento actual, cujo fim de vida se aproxima, é “fundamental”. “Está fora de questão os Açores e a Madeira não terem ligações em cabo submarino”, refere José Barros, director de relações exteriores da Anacom. “O satélite, que poderia ser uma alternativa, não disponibiliza a mesma largura de banda do que o cabo submarino. Enquanto no continente quando se recebe um email e tem um attachment ele abre rapidamente, lá [nas regiões autónomas] esperaríamos um minuto ou dois até abrir o ficheiro que viesse como anexo”, acrescenta.

Este sistema permitirá ainda promover a conectividade internacional do país, conferindo a Portugal “mais independência e possibilidade de escolha, com melhor qualidade e a melhores preços” ao nível das comunicações, refere José Barros. Além disso, a possível utilização do novo Anel CAM como Plataforma Atlântica CAM para amarração de cabos submarinos internacionais possibilitaria a instalação de serviços de armazenamento de dados (data centers e serviços cloud) e de interconexão com novos pontos de presença de operadores (PoP), sendo também uma forma de tirar partido da “excelente” posição geográfica de Portugal, explica o director da Anacom. Mas não só.

Fonte: Publico | Filipa Mendes