Reações Políticas Emocionais

Opinião de Diamantino Bártolo
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A pluridimensionalidade da vida implica, e tem subjacente, a intervenção das pessoas, em vários domínios da sociedade, nomeadamente: educativo, formativo, profissional, político, associativo, religioso, entre outros, para o que é sempre conveniente alguma preparação, nas áreas em que somos chamados a participar, e que aceitamos dar algum contributo, na maior parte dos casos, voluntário e a título gracioso, principalmente, no associativismo amador, cujas associações, na sua maioria, não possuem recursos para suportar salários dos dirigentes, nem aquisição de outros meios necessários ao seu funcionamento.

Na política, uma parte significativa dos cargos são remunerados e beneficiam, ainda, de diversos subsídios e regalias extraordinárias, de que resulta, algumas vezes, uma procura superior à oferta e, não raro, no interior das próprias forças partidárias, diversos conflitos porque os cargos disponíveis, para determinados órgãos do poder, não chegam para satisfazer o desejo de tantos interessados, havendo, então, que estabelecer critérios para seleção dos que vão integrar listas eleitorais e, depois, os “convites” para as nomeações de cargos importantes, normalmente, bem remunerados.

E se é verdade que os eleitos devem responder: perante quem os elegeu, em primeira instância; depois, junto de todo o eleitorado, independentemente da orientação do voto. Afinal, quando se é eleito para um cargo público, responde-se, genericamente, perante o eleitorado no seu todo, porque aquele eleito passa a ser, por exemplo, o Presidente de todos os portugueses, de todos os munícipes, de todos os fregueses, em função do órgão do poder para o qual concorreu.

A credibilização da política e dos políticos, está associada à legitimidade que aos eleitores lhes assiste, no sentido de saberem, concretamente, a quem devem pedir responsabilidades, quem devem punir ou premiar. É necessário que o eleitorado conheça bem os perfis dos candidatos que se apresentam, voluntariamente, para disputarem os cargos sujeitos a eleição.

Não faz sentido, e a democracia fica prejudicada, quando se é governado por pessoas que nem sequer integraram as respetivas listas de candidatos, que não foram sufragadas com os seus programas eleitorais, no fundo, tais governantes, seja qual for o nível, e órgão do poder, não passam de “nomeados” por confiança e simpatia pessoal e político-partidária, ou até de simples amizade, companheirismo de uma qualquer atividade desempenhada pelo nomeado e por quem o nomeia.

O que fica referido, não coloca em dúvida os conhecimentos e competências do nomeado, apenas se poderá questionar a sua legitimidade, face ao escrutínio popular, considerando que uma das caraterísticas da democracia se identifica com o sufrágio direto, presencial e universal, face a um conjunto de candidatos, e a um projeto político-partidário que é, ou não, sufragado e que depois de aceite, pela maioria do eleitorado, deve ser rigorosamente cumprido.

Sabe-se que, aquando da composição das listas, para uma determinada eleição, surgem diversas dificuldades, conforme a maior ou menor importância do cargo, tendo em consideração: remunerações, benefícios diversos, estatuto, prestígio e influência que proporciona o cargo. Compreende-se e faz parte, até certo ponto, da maior ou menor autoestima que a pessoa tem.

A título de exemplo: enquanto que na elaboração de uma lista para deputados ou para uma Câmara Municipal, há uma grande oferta e muitos acabam por ficar excluídos e magoados; outro tanto não acontece para uma Assembleia de Freguesia/Junta de Freguesia, de natureza rural, em que a dificuldade para se constituir uma lista é imensa, poucas pessoas estão disponíveis para “dar a cara”, porque temem represálias, desavenças com familiares, amigos, eventualmente, com clientes e fornecedores e ainda porque, materialmente, não proporcionam rendimentos e benefícios aliciantes.

Nas forças político-partidárias há sempre um conjunto de pessoas que, vulgarmente, são rotuladas por: fundadores, históricos, notáveis, imprescindíveis, influentes, e outras reputações que, de alguma forma, dominam o chamado “aparelho”, e/ou então que já têm o seu próprio núcleo de influência pública.

Estas pessoas, algumas vezes, são escutadas, eventualmente, seguidas as suas opiniões, por parte de quem se envolve mais intensamente na vida política. Mas também são estas pessoas que, quando contrariadas nos seus pergaminhos e argumentos, como que arrasam os mais “novatos” nestas atividades, e/ou boicotam determinadas iniciativas.

Acontece que um candidato a um qualquer lugar do poder legislativo e/ou executivo, no âmbito central, regional ou local, fica sujeito a diversas situações: 1) ganha as eleições e assume o lugar para que foi eleito, conquistando novas simpatias, adesões aos seus ideais/projetos e os apoios possíveis da máquina partidária que representa; 2) perde a disputa, e vai, ou não, para a oposição e, quando se verifica que aquela pessoa tudo fez para ganhar, que “deu a cara” por princípios e valores, da força política pela qual concorreu, então parece justo que seja “recompensada” de outra forma; 3) uma outra possibilidade pode resultar de uma pessoa, concretizados os mandatos possíveis, queira interromper a sua atividade política, sejam quais forem os motivos. Ela tem esse direito.

Incompreensivelmente, por vezes, já se tem apurado que, se uma pessoa entende que deve interromper a sua atividade política, e que por via dessa atitude, o cargo que ocupou, durante algum tempo, passou, entretanto, para outra pessoa, integrada numa outra força político-partidária diferente, as reações contra quem até então exerceu o cargo não se fazem esperar, e crucifixa-se aquela pessoa ou grupo, imputando-lhe todas as responsabilidades pela derrota, que o novo candidato e sua equipa sofreram.

Os ataques que por vezes são desencadeados, contra quem não prosseguiu a atividade política, ao serviço de uma determinada força partidária, revestem, em algumas pessoas, grande violência verbal que invade a honra, o bom-nome e a dignidade das pessoas injustamente atingidas.

Mas já não se compreende que, tendo-se feito parte de uma equipa ideológica, depois se passe para outra, para maldizer aquela que a própria pessoa integrou. Afinal, está a ser incoerente e a trair quem nela confiou a primeira vez, logo, não poderá oferecer garantias que num futuro próximo, não venha a fazer o mesmo contra quem agora a escolheu.

É inaceitável que se misturem princípios, valores, sentimentos, regras de boa educação, de irrepreensível conduta social, de ética político-moral, com a sede de desforras injustificadas. É necessário ter-se a capacidade de se dominar certas emoções políticas, porque para além de se prejudicar a saúde das pessoas envolvidas, revela bem o caráter de quem recorre a qualquer tipo de violência e/ou agressão psico-ideológica.

É muito importante ter-se sempre presente: 1) Todas as pessoas devem ser respeitadas nas suas convicções: políticas, religiosas, sociais, profissionais, familiares, afinal, na sua dignidade; 2) Toda a gente precisa dos seus semelhantes, porque a autonomia absoluta não existe, por muito poderosos que pensemos ser, por muitas influências que tenhamos, por muitas amizades que conquistemos; 3) A vida é efémera, relativamente curta, não vale a pena fomentar, participar e alimentar ações que envolvem atitudes e sentimentos violentos; 4) Ao longo da vida acumulam-se: as boas e as más ações; os princípios, valores e sentimentos que professamos, demonstramos e praticamos; 5) no final, haverá um balanço, em relação ao qual, e na falta de outros instrumentos de avaliação, restam a nossa Consciência, da qual não temos escapatória e a Justiça Divina.

Sacrificar princípios, valores, sentimentos e relações de consideração, estima, respeito, amizade e gratidão, por circunstâncias pontuais, resultantes de legítimas opções individuais, revela bem o caráter de quem se deixa influenciar pelos “amigos da onça”, por egoísmos mesquinhos, por orgulhos doentios.

Há sempre muito mais na vida para além: da política, da religião, das situações casuísticas, estranhas aos grandes valores da: solidariedade, amizade, lealdade, gratidão, humildade, honra e dignidade.

 Os verdadeiros e incondicionais amigos, são-no para a vida, nos fracassos e nos sucessos, na tristeza e na alegria; na miséria e na abundância. Nada os separa, porque entre eles não há segredos, nem omissões e muito menos falsidades. Os valores e os amigos não se compram: conquistam-se pelas nossas boas ações, nobreza do caráter e preocupação pelo seu bem-estar.

O tratamento que algumas pessoas manifestam, em relação aos seus correligionários, que mais se aproxima de autênticos assassinatos políticos, só contribui para o afastamento de pessoas válidas, que ainda teriam muito para dar à sociedade, e à própria força política com a qual simpatizam.

A incapacidade para aceitar as divergências, as diferenças de opiniões, as reiteradas atitudes de maledicência, de malquerença, de hostilização, conduzem, irremediavelmente, ao desinteresse pela participação, pela integração na vida política ativa, não remunerada, principalmente a nível local.

A chave para o sucesso de qualquer organização em geral e, particularmente, na vida político-partidária, reside numa estratégia de união das divergências, na conjugação das sinergias, na pluralidade de opiniões, na tolerância, compreensão, assimilação e integração dos diferentes projetos, no seio da instituição.

A imposição de ideias, projetos, intervenções de alguns fundadores, históricos, notáveis e outros cognomes, pretensamente iluminados, experientes e sábios (que, quantas vezes nem sequer deram a cara em nenhuma lista para uma eleição), afinal não têm produzido resultados objetivos, ganhadores. É sempre muito fácil estar-se de fora a criticar, eventualmente, a denegrir quem, de boa-fé, com o melhor que sabe e pode, sempre vai desenvolvendo algum trabalho.

Consideram-se, para além de outras opiniões as quais, inequivocamente, se respeitam que: 1) Não é nada aconselhável “escorraçar” das fileiras político-partidárias as pessoas que, mesmo em circunstâncias difíceis, ganharam a adesão popular e querem trabalhar para os ideais consignados nos respetivos estatutos; 2) Os cargos de escolha/nomeação política devem, antes de outras opções, ser consignados àquelas pessoas que de facto colaboraram intensa e entusiasticamente para a vitória da força política com a qual alinharam: seja diretamente, seja através de interposta pessoa, familiares e amigos; 3) Abertura, aos independentes? Certamente que sim, porém, estes deveriam “vestir a camisola” e não se refugiarem, com vergonha, numa alegada independência, porque a partir do momento em que aceitam os convites, os apoios, as remunerações e os inúmeros benefícios, deixam de ter autoridade ético-moral, para se esconderem atrás do rótulo da autonomia.

Assiste-se, com alguma frequência, à fragmentação, e/ou formação de grupos, mais ou menos sectários, dentro das forças políticas, com destaque nas pequenas localidades, precisamente, porque há uma grande dificuldade em separar a atividade política de outras ocupações, valores e sentimentos.

Na verdade, ainda existem mentalidades extremamente fechadas, intolerantes e tudo o que não encaixa nos seus apertados preconceitos, é imediatamente condicionado, e daqui para o ataque pessoal vai uma curta e rapidamente ultrapassada distância.

A política, as pessoas e o mundo dão muitas “voltas”, o que significa que: o que atualmente é verdade, amanhã pode não o ser; o que hoje se faz, amanhã pode-se colher os frutos, bons ou maus. Portanto, quando se opta pelo caminho da desconsideração, da hostilização, da deslealdade, eis que a pessoa, vítima de tais atitudes, surge de novo, vai à luta e devolve aos seus detratores tudo o que, por culpa deles próprios, foi perdido.

É caso para se recordar o velho aforismo: “Deus escreve direito por linhas tortas” ou então: “Quem com ferros mata, com ferros morre”. Retire-se, portanto, a lição dos erros cometidos e peça-se desculpa aos humilhados e, simultaneamente, reponham-se a honra, a reputação, o bom-nome e dignidade. Corrijam-se as ofensas e restitua-se a credibilidade antes denegrida por quem “divide para reinar”.