Uma Interpretação da CRISE

Opinião de Diamantino Bártolo
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Tanto quanto se julga saber, analisando a História da Humanidade e, dentro desta, alguns dos seus pilares como os: económico, social, político, religioso, militar, institucional, axiológico, entre outros, é possível chegar-se à conclusão que, ao longo dos vários séculos e milénios, sempre houve crises: umas, mais globais; outras, mais regionais, com mais ou menos acentuada gravidade, conforme afetam, em maior ou menor profundidade, a vida das pessoas, nas diferentes dimensões da existência humana.

Podemos analisar a palavra Crise no seu conceito habitual, como sendo uma situação difícil, seja para uma pessoa, família, instituição ou país que, normalmente, tem repercussões negativas na qualidade de vida das pessoas. Também entendida como rutura de um sistema, político, económico, financeiro, religioso. Uma nova situação que vai conduzindo a outras dificuldades e/ou agravamento das já existentes. Um período de evolução perigosa, enfim, uma situação que, não é desejável por quem detém um determinado “status” de conforto, prestígio, segurança, aliás, ninguém deseja viver com perturbação.

A palavra CRISE, também poderá ser entendida como a sigla de um conjunto de situações, valores e sentimentos que, atualmente, primeiro quarto do século XXI, no mundo em geral, mas com particular acutilância em Portugal, se fazem sentir, nomeadamente quanto aos valores das: Consideração, Respeito, Integridade, Solidariedade e Estima, aqui direcionados para a população, tanto mais sofrida, quanto mais idosa, fragilizada e atemorizada, no fim dos seus últimos dias da vida físico-biológica, neste mundo terreno, instável e atormentado.

A sociedade, em todas as suas vertentes, vem sendo “governada”, “conduzida”, “dominada” e, em muitas das suas dimensões, profundamente “transformada”, concretamente, na sua axiologia, verificando-se que as diferentes gerações, dos diversos poderes instituídos, têm visões que vão da coincidência à divergência, quanto ao que consideram ser melhor, ou pior, para a humanidade, bem como os objetivos a atingir para confirmar as respetivas teses, que, obviamente, também são diversas, assim como as estratégias e métodos.

Com efeito, atravessam-se tempos muito difíceis, complexos, de tal forma que, em boa verdade, parece que ninguém se entende, fica-se com a sensação de que vale tudo, a qualquer preço, mesmo que este signifique a destruição, miséria, fome e morte dos mais fracos, desprotegidos e, facilmente, atacáveis.

Eles, os agora mais fracos, já deram tudo, ou quase tudo, o que ao longo de décadas lhes foi exigido, quantas vezes, coerciva e unilateralmente imposto, pouco mais lhes restando do que míseros rendimentos, para os quais contribuíram, na esperança de que um dia usufruiriam dos sacrifícios que então tiveram de passar.

Assiste-se, com relativa facilidade, à mais incompreensível falta de Consideração por todos aqueles que, em várias frentes, estiveram ao serviço de um ideal, de um futuro, para eles e para as gerações vindouras. Foram os Seniores de hoje que, ao longo das suas vidas, contribuíram, generosamente, com esperança, com boa-fé, para que os seus filhos, netos e todas as gerações futuras, pudessem vir a ter uma melhor vida, com mais conforto e dignidade.

Foram eles, os Seniores que, quantas vezes, privando-se de bens essenciais, de algum lazer, trabalharam, incansavelmente, pouparam até aos limites da avareza e investiram em muitos daqueles que hoje governam: seja através da atividade política, empresarial, religiosa ou associativa.

CONSIDERAÇÃO por aquelas pessoas é um valor e uma atitude que, tudo indica, está a ser insensivelmente afastada por alguns eleitos que, hoje, ocupam lugares proeminentes: em parte, por mérito próprio; em parte, por influências e, em grande parte, por quem lhes proporcionou uma educação e formação necessárias, para ascenderem aos mais altos cargos dos diversos poderes.

Onde está, pelo menos, a Consideração devida a estas pessoas, a quem, hoje, lhes retiram direitos adquiridos, para os quais contribuíram com grandes sacrifícios. Mas é claro que a falta de Ponderação para com quem nos faz bem, infelizmente, até parece que “está na moda”, que se exibe como sinónimo de autonomia, de poder que, em alguns casos, se aproxima da arrogância, própria de quem se julga superior, e não mais necessitar de quem, no passado, os ajudou com grande generosidade, simpatia, amizade e boa-fé.

O que é a Consideração para tais pessoas? Será que quem hoje está num determinado poder, pensa que jamais vai precisar do apoio dos seus semelhantes? Entenderão tais pessoas que quem as ajudou, afinal já não tem qualquer importância e influência na sociedade? É evidente que a falta de Consideração se equipara à ingratidão e esta atitude revela bem o caráter de quem é mal-agradecido.

Deve-se parar um pouco para refletir, porque: «É preciso sempre ajudar os fracos, mesmo sabendo, antecipadamente, que aqueles a quem se faz o bem não agradecerão. Sabei que, se aquele a quem prestastes um benefício esquecer o bem que recebeu, Deus o levará mais em conta do que se tivésseis sido recompensados pelo reconhecimento do vosso beneficiador.» (KARDEC, 2010:278).

 Nesta linha de pensamento, e numa apreciação objetiva, que parece oportuno fazer-se, também importa referir que a falta de Consideração devida à comunidade Sénior, em certa medida, conduz a uma outra atitude, que se pode entender, também, como falta de Respeito, porque isso é bem patente nos procedimentos legais, não, necessariamente, legítimos e muito menos justos, que os detentores do poder estão a manifestar contra aqueles que, precisamente, os elegeram, com esperança, acreditando na palavra dada, consubstanciada nas promessas feitas quando buscavam, desesperadamente e a todo o custo, o poder.

RESPEITO é a segunda letra da sigla CRISE e, dia-após-dia, este superior valor que remete para um comportamento próprio das pessoas bem-formadas, tudo indica que está a diluir-se nos interesses individuais de quem tem poder para tomar e aplicar, unilateralmente, as mais violentas decisões, porque não respeita a dignidade dos seus semelhantes, e que deve caraterizar toda a pessoa humana, isto é: todos os cidadãos nascem livres e são iguais em dignidade e direitos.

Quem governa, seja o que for, é porque detém poder e vice-versa: quem detém poder, pode governar, seja o que for. O Respeito é um valor, um comportamento, uma deferência, que deverá ser pluridirecional, recíproco, mas, eventualmente, deve partir de quem está melhor preparado, e ocupa posições de maior responsabilidade, de resto, como aconselham as boas normas de conduta social, ou seja: “os bons exemplos devem partir de cima”.

É inaceitável que pessoas com formação superior, em especial, mas também quem não possui tal preparação, ocupando cargos importantes, não tenham respeito pelos seus semelhantes em geral, e por aqueles que, em parte, lhes proporcionaram educação, formação e estatuto.

É bom não ignorar que grande parte das pessoas, se tem formado à custa do erário público, para o qual todos contribuem, através de enormes cargas fiscais, incluindo os que durante toda a vida foram tributados e, agora, extemporaneamente, depois de terem cumprido com todas as suas obrigações fiscais, para auferirem um rendimento que lhes permita um fim de vida digno, continuam sufocados com tantos impostos.

Os Seniores são, mais uma vez, convocados, coerciva e injustamente, para colaborarem no seu próprio empobrecimento, precisamente pelos detentores do poder que, tendo beneficiado dos contributos daqueles, os maltratam agora e humilham, porque os encontram fragilizados e depauperados. Haja respeito pelas pessoas, por aquelas que tudo deram na vida, para proporcionarem o melhor às novas gerações, mas também para terem um final tranquilo, confortável e digno, porque é justo, legítimo e legal que assim seja.

O Respeito, que é devido às gerações que agora se aproximam do fim do seu ciclo de vida terrena, não é compatível com processos e procedimentos ofensivos da dignidade destas pessoas. É claro que para além de outros interesses, o Respeito encontra-se sempre, nas pessoas humanas de bem, com boa formação e estas assertivas confirmam-se, claramente.

Na verdade, tudo indica que: «O verdadeiro homem de bem é aquele que pratica a Lei da justiça, de amor e de caridade na sua maior pureza (…). O homem de bem é humano, é bom e benevolente para todo o mundo, sem distinção de raças, nem de crenças, porque vê irmãos em todos os homens (…). O homem de bem, enfim, respeita nos seus semelhantes todos os direitos …» (KARDEC:332-34).

A INTEGRIDADE física, moral, ética e psicológica das pessoas deve ser escrupulosamente respeitada, porque constitui uma componente fundamental e única no ser humano, que não se encontra em mais nenhuma outra criatura, tem um “valor” inestimável, e inegociável e, em circunstância alguma, ela não deverá ser posta em causa, pelo que quaisquer decisões, atitudes e comportamentos que atentem contra a integridade, nas suas diferentes, mas complementares vertentes, devem ser rejeitadas liminarmente.

A terceira letra da sigla CRISE, entre outras possibilidades, remete-nos para este valor universal da pessoa humana que é a sua INTEGRIDADE, também a Idoneidade e por isso, quem quer que, por algum meio, processo ou “esquema” tente negá-la, atacá-la e destrui-la, certamente, não será uma pessoa de bem, revelará profunda falta de consideração e respeito para com a pessoa humana que, em nenhum momento da sua vida, se poderá ver privada deste valor ecuménico, que é também parte da sua dignidade.

Realmente, a crise que se vive, sendo económica, financeira, laboral e social, não será, todavia, a principal, porque, o que efetivamente se verifica é, sim, uma profunda crise axiológica. Numa sociedade pretensamente civilizada: onde todos os dias se proclamam a defesa dos direitos humanos, bem como algumas louváveis iniciativas nesse sentido; paralelamente, numa dimensão incomensurável, assiste-se à prática de uma grande insensibilidade, para o exercício dos comportamentos e boas-práticas, principalmente por parte de quem tem o dever ético-moral e institucional de executar esse valor, para com todas as pessoas que estão a sofrer as crueldades de decisões injustas e ilegítimas, por vezes, também ilegais/inconstitucionais.

Por último, só nos primeiros meses de 2020, uma outra crise profunda, sem data marcada para o seu fim, apanhou o mundo, como que de surpresa. Trata-se da Pandemia provocada pelo coronavírus/COVID-19. Cerca de 18 359 079, de pessoas estão infetadas, 11 551 958, já se recuperaram, no entanto, teremos de lamentar 694 980 mortes. O mundo, desde as maiores potências ao lugar mais pequenino, vive aterrorizado, porque a todo o momento, qualquer pessoa, poderá ficar infetada e partir para a morte, por isso, todas as indicações transmitidas pelas Autoridades de Saúde devem ser seguidas rigorosamente.

Exigir Consideração, Respeito, Integridade, a que se deve adicionar a quarta letra da palavra CRISE, que corresponde ao valor da SOLIDARIEDADE, para com as pessoas em geral e, particularmente, em relação aos mais desprotegidos na vida, por várias razões: idade, doença, desemprego, rendimentos exíguos, baixo estatuto, autoestima, praticamente, inexistente, é quase um lugar-comum, mas a verdade é que a Solidariedade, a par de outros valores, contribui para a denominada “felicidade social”, a que todas as pessoas têm direito, e pela qual lutam uma vida inteira.

Com efeito: «A pessoa fica feliz ao ajudar outro ser humano a ser feliz (…). A felicidade social é a expressão máxima de saúde relacional social. (…) Tolerância, solidariedade, compaixão, sabedoria e não-violência fazem parte da felicidade social. Os grandes guias religiosos foram as suas expressões máximas.» (TIBA, 2003:72).

Portanto, há valores que são devidos e exigidos para com os mais desfavorecidos, vulneráveis e que, inexoravelmente, se aproximam do fim da sua passagem pela Terra. Tais pessoas, que já cumpriram parte das suas principais obrigações, têm o direito à Consideração, ao Respeito, à Integridade e à Solidariedade, porque também elas foram solidárias: primeiro, para com os seus antepassados; a seguir em relação aos seus parentes, colegas e amigos e depois, e como que por antecipação, com as gerações que se preparam, para, por vezes, sem olhar a meios, subir ao poder e maltratar, precisamente, aqueles que deveriam ser os primeiros a merecer a solidariedade, destas novas gerações.

Ao que parece, a gratidão de algumas pessoas é um valor utópico, até em relação aos seus próprios parentes mais chegados, os seus progenitores, os seus avós, amigos, entre outros. Que falta de Solidariedade e de sensibilidade reina na mente de tantas pessoas, que se julgam “importantes” por que pensam possuir um determinado estatuto, ou atributo, mas que, afinal, revelam uma incómoda jactância que em nada as dignifica. (Entenda-se a jactância, no seu conceito mais comum, isto é: quem tem atitudes e age com arrogância, ações e hábitos de gabarolices, conduta de quem vive a manifestar fanfarronices).

Abordar a sigla CRISE quanto ao seu último caráter, leva-nos a pensar no valor e comportamento da ESTIMA. Sem dúvida alguma que sentirmo-nos estimados, e que sabemos ser próprio de quem nos quer bem, mas também pelos nossos semelhantes, constitui um forte “alimento”, na elevação da nossa autoestima, (que tão maltratada tem sido ao longo dos primeiros anos da segunda década deste novo século XXI), para continuarmos a pensar que ainda temos amigos, que estão do nosso lado, sempre disponíveis para nos ajudar.

 A Estima a par da Consideração é muito importante para a manutenção da nossa afirmação como pessoas, verdadeiramente humanas, que nos leva a pensar que ainda somos queridos, que a nossa existência com os respetivos princípios, valores, sentimentos e emoções, são apreciados e aprovados.

Não haverá ninguém, ou então, muito poucas pessoas, que não desejará ser estimada, querida, desejada, acarinhada e apoiada, sendo certo que aquele valor, o da Estima, também envolve um comportamento bem específico e transparente, nas pessoas que genuinamente gostam de nós.

Interpretar a CRISE, adoptando a palavra como uma sigla de valores e comportamentos,  não é mais nem menos do que exigirmos: à sociedade em geral, e a quem, por uma circunstância qualquer nos superintende, que manifestem CONSIDERAÇÃO, RESPEITO, INTEGRIDADE, SOLIDARIEDADE e ESTIMA, porque o que está em causa é uma quase total ausência destes e doutros valores, princípios, sentimentos e emoções, por parte de quem tinha a obrigação de se comportar na comunidade com gratidão, compreensão, tolerância e respeito.

Quando: se ataca, discriminada e negativamente, determinados setores da sociedade e, dentro destes, as pessoas, grupos e instituições mais fragilizadas; se afirma, e decide, que é preciso adotar certas medidas, que afetam, desumanamente, sempre as mesmas pessoas, classes e grupos etários mais avançados, sabendo-se que tais decisores, possivelmente, nunca passaram por situações de muitas privações e que, eventualmente, têm garantidos, inclusivamente, a nível nacional e internacional, o seu próprio futuro, de seus familiares e amigos, então sim, esta é que é a verdadeira CRISE. Uma crise de: princípios, valores, sentimentos e emoções verdadeiramente humanos. 

Se não interiorizarmos e praticarmos os valores acima abordados, estaremos, então, a valorizar tudo o que é a CRISE, tal como os: egoísmos, hipocrisias, cinismos, deslealdades, ingratidões, arrogâncias, prepotências, autoritarismo, exploração laboral e tantos outros comportamentos repugnantes, impróprios de uma Civilização que se deseja sirva de paradigma para o mundo.

Bibliografia

KARDEC, Allan, (2010). O Evangelho Segundo o Espiritismo: contendo a explicação das máximas morais do Cristo, sua concordância com o Espiritismo e sua aplicação nas diversas situações da vida. Tradução, de Albertina Escudeiro Sêco. 4ª Edição. Algés/Portugal: Verdade e Luz – Editora e Distribuidora Espírita.

TIBA, Içami, (2003). Quem Ama, Educa! Lisboa: Pergaminho.