VER PARA CRER

Portinho de Vila Praia de Âncora [Celestino Ribeiro]
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Há dias fui sobressaltado por uma notícia do JN que dava conta da colocação de luz no farolim do quebra- mar norte do portinho de Vila Praia de Âncora apagado há três anos e, de uma importante intervenção nas infraestruturas portuárias, nomeadamente, na orientação deste molhe causador principal do assoreamento crónico destas instalações.

O enfiamento do antigo Portinho determinado pelos dois velhos farolins, é a indicação natural e segura para demandar este porto de abrigo. Mas a incompetência comprovada dos responsáveis pelo estudo e projeto desta infraestrutura atual, ignorou esse importante pormenor. O novo quebra-mar norte e o mais importante desta obra ultrapassou a indicação do enfiamento original oitenta metros para sotavento com orientação sulsudeste. Um completo absurdo, um disparate monumental.

Atualmente, os antigos farolins estão obsoletos e não indicam nada, como é óbvio. São uma memória do passado, mas peças importantes do nosso património marítimo a preservar. Estão desativados.

Mas agora o mais interessante, é que depois de várias promessas feitas por altos responsáveis da governação, ministros e outros ao longo destes anos depois do fiasco verificado sem culpados acusados, com as consequências que todos lhe reconhecemos, como a quebra substancial do número de embarcações e profissionais da pesca ( os números atuais são residuais ) eis que surge uma nova entidade, a DOCAPESCA, a prometer para breve “ uma profunda reabilitação da infraestrutura “ e que “será agora realizado o procedimento concursal da empreitada para que esta tenha início até ao final do ano” (JN)

Isto, se fosse a sério, dava para festejar em arco. Mas custa tanto acreditar nesta promessa depois de importantes responsáveis pelo lançamento da obra não o terem feito. Os mesmos que se deram conta da amarga constatação do fiasco. E do rombo que deram ao erário público. Será mesmo que a DOCAPESCA tem os recursos para fazer o que governos não fizeram? Isto é estonteante!

Desta vez, isto é, nestes últimos meses, até faltaram ao prometido desassoreamento previsto para Maio passado, de que aliás, demos oportunamente nota. Tratava-se de mais um paliativo como há anos tem sido, mas à falta da tal intervenção de fundo ia embalando o sonho de um dia melhor.

Entretanto, o que significa para a DOCAPESCA, concretamente, “ Uma reabilitação profunda?” Para já, é necessário desassorear o canal e a bacia obstruídos pela enorme quantidade de areia; depois, sim, deitar mãos à obra a começar por alterar definitivamente o comprimento e a errada orientação do quebra-mar norte. Será disso que se trata? Ou de mais uma mera operação de cosmética sem resultados práticos e eficazes? Mais uma ilusão?

Tão importante melhoramento da infraestrutura anunciada pela DOCAPESCA, depois de lhe levar três anos para solucionar o pequeno problema da luzinha do farolim, custa mesmo muito a crer nesta promessa. Por isso só podemos acreditar mesmo naquilo que vemos. Quando pudermos ver esta reabilitação profunda da infraestrutura anunciada realizada, então, aí, é que acreditamos.

Ora, se lhe fizerem apenas uma mera maquilhagem para inglês ver e ficar tudo na mesma, goradas ficarão mais uma vez as espectativas e comprometida a segurança e a manobra das embarcações e permanecerão os riscos para os pescadores.

Se esta promessa anunciada com previsão de tempo e tudo fosse feita por um político em campanha eleitoral, eu desde logo a descartaria, pois sabia que não era realizada. Mas tão pouco me fio nas promessas da DOCAPESCA cujas intervenções ou mediações até hoje não me convenceram. Porque, pergunto, onde está o sumo?

Um arranjo cosmético inconsequente, talvez o faça, mas uma intervenção de fundo que modifique em definitivo a infraestrutura, é difícil de engolir. Sem mexer no quebra-mar norte, na correção da sua orientação e no seu comprimento de modo a conjugar-se com a orientação primitiva indicada pelos antigos farolins, não me dá garantias.

Esperamos para ver como S. Tomé. E para ver é preciso luz, mas uma luz de longo alcance e não uma luzinha ténue da lanterna de um farolim. Cético eu? Não! Apenas realista.

Depois de ter acreditado em vão, não posso ir nessa de acreditar em todas as notícias que me chegam sem ver a obra realizada. Mas vamos dar o benefício da dúvida à notícia e desejar uma boa viagem ao projeto anunciado e à empreitada.

Celestino Fernandes