COMUNICAÇÃO COMO CIÊNCIA E ARTE (DIAMANTINO BÁRTOLO)

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Investir na comunicação torna-se um imperativo estratégico que revela bom-senso, objetivos altruístas e prevenção, no que respeita a garantir um futuro mais tranquilo para a humanidade, de melhor qualidade e níveis de vida, mais próximos da verdadeira dignidade humana, esta considerada como o expoente máximo de toda a criação.

A pessoa, genuinamente humana, não pode viver mais num ambiente de crescente selvajaria no sentido do “vale tudo”, do “quero, posso e mando”, dos nacionalismos exacerbados, dos fundamentalismos violadores dos direitos e deveres dos cidadãos. Tem-se assistido à destruição dos valores mais sublimes da condição humana, dos quais se destaca a Paz.

Com que objetivos, nem sempre se sabe bem, todavia, com resultados que estão à vista de todo o mundo: destruição de pessoas, de bens, de projetos humanitários, sofrimento, tristeza, miséria, dor e morte.

A comunicação não tem funcionado eficazmente no sentido de produzir resultados positivos para o todo, (embora os vencedores considerem positivos os resultados que convém aos seus interesses, mas eles, os triunfadores, são apenas uma pequena minoria).

O que aqui se afirma, genérica e relativamente a situações concretas, vividas com mais destruição e sofrimento em alguns pontos do mundo, mais referenciados, aplica-se, igualmente, a outras situações de menor impacto visual, embora, por vezes, com idênticos resultados negativos, ao nível individual e localizado em pequenos espaços públicos e privados.

Quaisquer que sejam as circunstâncias, a comunicação não se tem revelado competente, porque ela é uma ciência que ainda não é dominada, nem sequer é conhecida, por muitos dos responsáveis pelas situações catastróficas, que em muitos pontos do globo se vivem, onde a racionalidade do diálogo é substituída pela força das armas.

A comunicação, como ciência e também como arte, obviamente, representa uma parcela da realidade que estuda, isto é, a dimensão comunicacional da pessoa, esta, por sua vez, insere-se noutras realidades, que são explicadas cientificamente, ou não, sempre através da comunicação verbal e/ou não-verbal.

Crie-se uma espécie de círculo vicioso, que introduza uma complexidade acrescida, na medida em que, as múltiplas dimensões do ser humano estão interligadas entre si, e todas se complementam para que a construção do resultado final seja a mais perfeita possível, sempre com o objetivo consubstanciado em resultados direcionados para o entendimento, a compreensão, a tolerância e a solidariedade.

Neste contexto, a comunicação é, porventura, uma ciência que urge ser conhecida e dominada por um número cada vez maior de pessoas, certamente a começar por aqueles que detêm responsabilidades decisórias, quaisquer que sejam o objetivo e natureza das instituições: políticas, religiosas, sócio-culturais, económicas, de solidariedade social, ou outras, porque: «Se a construção social da realidade depender dos sistemas e das modalidades de comunicação, uns e outros dependem dos sistemas sociais e culturais, dos quais fazem parte actores e agentes sociais, simultaneamente produtores e consumidores de comunicação e de informação. Como os fenómenos sociais não são lineares, mas circulares, pode dizer-se que os processos de comunicação, de cultura e de conhecimento se condicionam mutuamente: cada um é causa e efeito do outro.» (DIAS, 2004:24).

Confirma-se, com preocupante notoriedade, a crescente necessidade de formação, essencialmente no domínio da comunicação humana, para todos os grupos: sociais, profissionais, culturais, políticos, religiosos, económicos e quaisquer outros, partindo da realidade existente.

A evidência do desentendimento é uma situação que se coloca à sociedade, sem quaisquer dúvidas. As razões invocadas pelas partes desavindas são imensas, tornar-se-ia exaustivo enumerá-las, até porque, tal elencagem ficaria inacabada. Importa, aqui, destacar apenas uma, que se prende com a ineficácia da comunicação.

Conhecer e aplicar bem, no sentido dos bons resultados e, ainda assim, estes entendidos como positivos para as partes envolvidas, a comunicação é, portanto, a questão nuclear. Toda a ciência pode e deve ser transmitida pela teoria e pela prática. O conhecimento científico deve ser universal, acessível, exequível, reversível e produzir resultados objetivos e concretos.

A comunicação, enquanto ciência, deve estar ao alcance de todos, reconhecendo-se, embora, as limitações de muitos para acederem ao seu domínio, até porque se deve considerar que: «No plano científico a comunicação é, então, tomada como valor, o que equivale a dizer que ela vale por si mesma, independentemente dos meios que a veiculam ou expressam. Pode, a partir de agora, ser estudada e manipulada sem constrangimentos físicos ou humanos – algo que pode ser trabalhado para benefício da humanidade.» (Ibid.:34).

Impõe-se, assim, formar as pessoas para a comunicação, sem pretensão de que todas venham a usufruir do estatuto científico. Pretende-se que, cada vez, haja mais pessoas que comuniquem com uma base científica, isto é, com método, com objetividade, com rigor, com lealdade, com assertividade.

Mas comunicar é, também, uma arte, no sentido em que se toma o vocábulo, isto é, colocando intencionalidade, sentimento, emoção, expressão, mensagem, genuinidade; em suma, envolvendo-a nos valores estéticos, através da preocupação pela perfeição, pelo belo.

A comunicação pode (e deve) conter todos estes ingredientes e, assim sendo, o comunicador, qualquer que seja a linguagem, será, em determinados contextos, um artista, porque trabalha os materiais com habilidade, com engenho, produzindo um resultado final que é uma verdadeira obra de arte, ou seja, uma comunicação que congrega, em si mesma, o objetivo máximo, através da beleza dos efeitos que produz, nos demais interlocutores. 

A arte de comunicar envolve o conhecimento de fatores que, em determinadas circunstâncias, constituem barreiras à comunicação, entre outros: fatores pessoais, sociais, fisiológicos, psicológicos, personalidade; linguagem. Fatores que o agente da comunicação sabe utilizar e/ou evitar.

Este saber construir a comunicação, numa perspectiva estética, à escala do belo, certamente que é próprio do artista, por isso se pode aceitar a comunicação como arte, eventualmente, uma arte muito difícil de aprender (se é que a arte se aprende!), porque envolve interações entre pessoas, frequentemente, face-a-face, sujeitas a influências, pressões, valores, interesses e muitas outras variáveis, imprevisíveis e não controláveis.

Neste entendimento: «Comunicar torna-se, assim, uma arte de bem gerir mensagens, enviadas e recebidas, nos processos internacionais. Mas não só. O tempo, o espaço, o meio físico envolvente, o clima relacional, o corpo, os factores históricos da vida pessoal e social de cada indivíduo em presença, as expectativas e os sistemas de conhecimento que moldam a estrutura cognitiva de cada actor social condicionam e determinam o jogo relacional dos seres humanos.» (Ibid.:45).

Provisória e inconformadamente, pode-se aceitar que, devido à grande dificuldade que é comunicar, muitos problemas e conflitos atuais, se ficam a dever a esta manifesta incapacidade dos diversos responsáveis, pelos vários setores, das múltiplas atividades humanas.

Defender mais e melhor investimento na formação dos cidadãos, nesta dimensão humana, é uma atitude que deve ser levada em grande consideração, porque só depois se pode, e deve exigir competência comunicacional.

Está, inequivocamente, provado que só pela comunicação competente, que pressupõe diálogo assertivo permanente, entre pessoas, instituições e nações, se poderá atingir um patamar de menos conflitualidade, utilizando, inclusivamente, algumas técnicas de relações públicas, resolução de problemas e conflitos.

Meios e recursos: técnicos, financeiros e humanos, devem ser imediatamente disponibilizados para a formação e aperfeiçoamento da comunicação. Trata-se de um investimento que vai produzir bons resultados, pelo menos a médio e longo prazos, eventualmente, uma a duas gerações.

Bibliografia
DIAS, Fernando Nogueira, (2004). Relações Grupais e Desenvolvimento Humano. Lisboa: Instituto Piaget

Com o protesto da minha perene GRATIDÃO
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo