Portugal vive a partir de hoje em “crédito ambiental” até fim do ano

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Portugal começa hoje [13 de maio de 2021] a viver a “crédito ambiental”, ou seja, os cidadãos consumiram todos os recursos que permitiriam viver de forma sustentável este ano. O alerta vem da associação ambientalista Zero, que destacou que todos os anos esta data chega mais cedo.

“Se cada pessoa no Planeta vivesse como uma pessoa média portuguesa, a humanidade exigiria mais de dois planetas para sustentar as suas necessidades de recursos”, lê-se em comunicado divulgado pela Zero, acrescentando que tal implicaria que a área produtiva disponível para regenerar recursos e absorver resíduos a nível mundial esgotar-se-ia no dia 13 de maio, treze dias mais cedo do que em 2020, cuja data foi a 25 de maio.

“Se todas pessoas do mundo consumissem como consumimos em Portugal, a partir do dia 13 de maio nós teríamos que acionar um cartão de crédito ambiental. Passaríamos todos a ter que usar recursos para satisfazer necessidades de mobilidade, alimentação e habitação que só devíamos usar a partir do início do próximo ano”, disse à agência Lusa a ativista Susana Fonseca.

A especialista em pegada ecológica assinalou que Portugal, “não sendo obviamente o primeiro país do mundo que atinge este limite”, está a fazê-lo “muito antes de meados do ano”.

A Zero indica que “os cálculos têm em conta dados de vários anos, pelo que não espelham de forma clara as implicações da pandemia na pegada ecológica” portuguesa.

Susana Fonseca apontou que as áreas que têm mais peso na pegada ecológica de Portugal são alimentação, responsável por 32 por cento do consumo de recursos, e a mobilidade.

“Não obstante todos os esforços que fazemos pela eficiência energética, pela reciclagem, não estamos a conseguir reduzir a nossa pegada ecológica, estamos é a aumentá-la”, lamentou.

Para a Zero, “Portugal tem uma oportunidade única de aproveitar o Programa de Recuperação e Resiliência, a par com fundos de apoio europeus” para fazer transformações nos padrões de consumo.

Susana Fonseca apontou como objetivos a redução do consumo de proteína animal e a aposta numa “alimentação típica mediterrânica, com mais vegetais, leguminosas e mais fruta”.

Salientou que o consumo de proteína animal dos portugueses ultrapassa “o recomendado pela própria Direção-Geral da Saúde”. De acordo com os dados para Portugal, os cidadãos consomem três vezes mais carne do que se recomenda na roda dos alimentos, metade dos vegetais, um quarto das leguminosas e dois terços da fruta.

Defendeu ainda que a mobilidade sustentável está ao alcance com mais percursos a pé, de transporte público ou de bicicleta e privilegiando os meios de reunião por videoconferência em substituição de tantas viagens de avião.

A Zero recomendou ainda, em termos de práticas individuais, um consumo de forma mais circular, isto é, uma mudança da mentalidade “usar e deitar fora” para uma assente no princípio de “ter menos, mas de melhor qualidade”, com um forte enfoque na redução, reutilização, troca, compra em segunda mão e reparação.

Para isso, Susana Fonseca salientou que é preciso que os consumidores tenham escolhas sustentáveis que sejam acessíveis, para que deixe de acontecer como agora, em que mais sustentável equivale a mais dispendioso.

Já em termos de políticas, a Zero recomendou apostar numa agricultura de múltiplos outputs e promotora da soberania alimentar e aproveitar o potencial de redução de deslocações e viagens através do teletrabalho e da realização de eventos habitualmente presenciais, em formato virtual.

A associação também sugeriu investir de forma decisiva na criação de infraestruturas que permitam uma muito mais significativa utilização de modos suaves de transporte, em particular incentivando o uso da bicicleta e regulamentar para que os produtos colocados no mercado sejam sustentáveis, dando como exemplo a implementação de normas de durabilidade, garantias do direito a reparar e atualizar, de reutilização e reciclabilidade.

“Estas medidas permitirão criar novas áreas de trabalho qualificado e promover uma redução da pegada dos produtos”, acrescentou.